Por Guilherme Utpadel, CEO da WP Manager.
Quando vejo o mercado discutindo a B3RL, a primeira reação costuma ser classificá-la como mais uma novidade relacionada a criptoativos. Para mim, essa leitura é limitada. O que está sendo construído pela B3 diz respeito a uma mudança muito mais ampla na infraestrutura do mercado financeiro e, principalmente, pode criar uma nova frente de distribuição e receita para os escritórios de assessoria.
A B3 confirmou o cronograma da B3RL, sua stablecoin lastreada em real e garantida por títulos do Tesouro Nacional, construída sobre a rede Polygon. A estrutura de liquidação deve entrar em testes ainda em 2026, enquanto a plataforma de tokenização avança no segundo semestre. A partir de 2027, ações e produtos de renda fixa devem começar a circular como ativos tokenizados dentro do próprio ecossistema da bolsa.
O ponto que considero mais importante é entender o que isso significa na prática. Rodrigo Nardoni, vice-presidente de Tecnologia da B3, foi bastante preciso ao explicar que não estamos falando, neste primeiro momento, da criação de um mercado de negociação de ações tokenizadas. Estamos falando de uma representação em blockchain da base de dados do depositário tradicional.
Pode parecer uma diferença técnica, mas, para mim, é justamente aí que está a importância do movimento. Estamos falando de infraestrutura.
E toda vez que uma nova infraestrutura torna uma determinada operação mais eficiente e escalável, ela pode abrir espaço para novos produtos, novos modelos de distribuição e novas fontes de receita.
Não é sobre blockchain. É sobre distribuição
Quem trabalha com assessoria sabe que a evolução do mercado financeiro também é uma história de ampliação do cardápio de produtos.
COEs, crédito privado, fundos estruturados, câmbio e diferentes modalidades de investimento foram criando novas possibilidades de distribuição ao longo dos anos. Cada nova classe de produto trouxe também uma oportunidade para os escritórios ampliarem sua atuação e suas receitas.
Eu vejo a tokenização dentro dessa mesma lógica.
A tecnologia pode reduzir etapas de liquidação, diminuir a necessidade de reconciliações entre diferentes participantes da cadeia e permitir que determinados ativos sejam estruturados e distribuídos de maneira diferente da que conhecemos hoje.
Isso pode significar produtos mais fracionados, novas possibilidades de liquidez e estruturas que hoje ainda não estão disponíveis para o investidor de varejo.
Para mim, portanto, a pergunta mais interessante não é quem vai programar a blockchain.
É quem vai vender os produtos que nascerem sobre essa nova infraestrutura.
E, nesse ponto, os escritórios de assessoria têm uma posição privilegiada.
Uma nova fonte de receita está se formando
É claro que ainda não sabemos exatamente como essa oportunidade vai se transformar em dinheiro para os escritórios.
Não existe hoje um histórico de operação em escala que permita afirmar qual será a remuneração de cada produto tokenizado, qual será o percentual de comissão ou como os repasses serão estruturados. Qualquer número fechado apresentado neste momento seria especulação.
Mas não precisamos saber o percentual para entender a direção.
Se novos produtos financeiros chegarem ao mercado e precisarem ser distribuídos, haverá uma cadeia de participantes responsável por levar esses produtos ao investidor. E, nessa cadeia, os escritórios de assessoria terão potencialmente um papel relevante.
Acredito que os escritórios que começarem a entender essa transformação agora estarão em uma posição melhor quando esses produtos ganharem escala.
Não porque necessariamente serão os primeiros a vender um determinado ativo, mas porque já terão desenvolvido a estrutura comercial e operacional necessária para incorporá-lo ao portfólio.
O problema é que não podemos criar uma receita nova com controles antigos
Existe, porém, um ponto que me preocupa particularmente.
O mercado financeiro brasileiro avançou muito na discussão sobre transparência e conflitos de interesse. As Resoluções CVM 178 e 179 são parte importante desse movimento, especialmente ao trazer mais visibilidade para as relações de remuneração e para a atuação dos intermediários.
Na minha visão, seria um erro construir uma nova economia de ativos tokenizados e repetir os mesmos problemas de controle que ainda existem em estruturas tradicionais.
Imagine um escritório que passe a distribuir dez, vinte ou cinquenta produtos tokenizados e precise controlar manualmente quanto cada produto gerou, de onde veio a receita, quanto cabe ao escritório, quanto deve ser direcionado ao assessor e como esse valor será dividido entre sócios.
Não faz sentido.
Se estamos falando de uma infraestrutura digital, com rastreabilidade e automação como algumas de suas principais promessas, o controle da receita também precisa acompanhar essa evolução.
Não podemos colocar um produto financeiro em blockchain e continuar administrando o comissionamento em planilhas.
É justamente aqui que a gestão de comissões se torna estratégica
Na WP Manager, eu acompanho esse problema de perto porque ele já existe hoje, antes mesmo de a tokenização ganhar escala.
A nossa plataforma foi desenvolvida para automatizar o cálculo de comissões e dar rastreabilidade ao caminho da receita, desde a origem do produto até o escritório, o assessor e os sócios. Também trabalhamos com estruturas societárias que envolvem regras de vesting, cliff e governança.
O que muda com a tokenização é o tipo de produto que pode entrar nessa esteira.
O motor continua sendo essencialmente o mesmo: identificar a origem da receita, calcular o valor devido, aplicar as regras estabelecidas e garantir que cada participante receba aquilo que lhe cabe, com rastreabilidade.
Se, a partir de 2027, os ativos tokenizados começarem efetivamente a ganhar volume, não acredito que os escritórios devam criar uma estrutura completamente nova para administrar essas receitas. O caminho mais eficiente será incorporar esses produtos à infraestrutura que já utilizam.
É uma questão de escala.
O maior risco é chegar tarde
Ainda vejo parte do mercado tratando a tokenização como algo distante, restrito a especialistas em tecnologia ou a investidores interessados em criptoativos.
Acredito que esse é um erro de leitura.
A tecnologia pode estar nos bastidores, mas o impacto tende a aparecer na ponta: nos produtos oferecidos ao cliente, na forma de distribuição, nos processos operacionais e, consequentemente, nas receitas dos participantes desse ecossistema.
Ainda precisamos descobrir quais produtos terão maior adesão, como será a regulamentação, qual será o papel de cada intermediário e como exatamente a remuneração será estruturada.
Mas esperar todas essas respostas para começar a se preparar pode ser uma estratégia ruim.
Quando uma nova fonte de receita se torna evidente para todo o mercado, a vantagem de quem começou a se preparar antes já diminuiu.
Por isso, acredito que a discussão sobre a B3RL deveria estar acontecendo agora dentro dos escritórios de assessoria. Não para decidir quais ativos tokenizados serão vendidos amanhã, mas para entender quais processos precisarão estar preparados quando eles chegarem.
No fim, não vejo a B3RL como uma notícia de criptoativo.
Vejo como mais um passo na transformação da infraestrutura do mercado financeiro brasileiro e, potencialmente, como o início de uma nova categoria de produtos que os escritórios terão de aprender a distribuir.
Ainda não sabemos exatamente quanto essa nova receita vai representar.
Mas sabemos que, quando ela chegar, alguém terá de distribuí-la.
E eu acredito que os escritórios que estiverem preparados para fazer isso com controle, transparência e governança terão uma vantagem importante sobre aqueles que decidirem esperar o mercado acontecer para só então se adaptar.