O investimento global em ativos intangíveis ultrapassou US$ 10 trilhões pela primeira vez. O dado, que integra o World Intangible Investment Highlights 2026, publicado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual e pela Luiss Business School, confirma uma transformação na construção de valor.
Desde 2008, o investimento em intangíveis cresce mais de três vezes mais rápido que o investimento em ativos tangíveis. Capital organizacional, pesquisa e desenvolvimento, software, dados, marcas, design e conhecimento assumem uma participação cada vez mais relevante na economia.
O estudo analisou 29 economias que representam 57% do PIB mundial. Entre 2008 e 2025, o investimento intangível registrou crescimento real anual de 3,5%, enquanto o tangível avançou 0,98%.
No Brasil, as marcas representam 25,3% da composição do investimento intangível, percentual superior ao do Reino Unido a cerca de 1,7 vez a média das economias analisadas. O país ocupa a quinta posição mundial em investimento absoluto em marcas, com US$ 79 bilhões em 2023.
Os números revelam onde o capital está sendo colocado e também evidenciam uma contradição. As empresas investem cada vez mais naquilo que nem sempre conseguem identificar, mensurar ou governar de forma integrada.
A dificuldade ultrapassa os limites dos instrumentos contábeis. Em muitas organizações, esses ativos permanecem invisíveis para quem toma as decisões. Eles estão no conhecimento acumulado, na cultura, na confiança construída ao longo do tempo e em maneiras particulares de interpretar problemas e criar soluções.
Investimento não é sinônimo de valor
O crescimento desses investimentos não significa que todo recurso destinado a marcas, inovação, tecnologia ou conhecimento se transforme automaticamente em valor. Investimento, valor econômico e preço são conceitos relacionados, mas não equivalentes.
A propriedade intelectual ocupa um lugar específico nesse universo. Patentes, marcas, desenhos industriais e programas de computador estão associados a direitos que podem ser protegidos, transferidos ou licenciados. A proteção jurídica permite controlar seu uso, mas não determina, isoladamente, quanto valem.
Uma patente sem aplicação comercial relevante pode possuir pouco valor econômico. O mesmo ocorre com uma marca incapaz de sustentar preferência, confiança ou receita. Ao mesmo tempo, ativos com grande potencial podem permanecer subutilizados ou ausentes das decisões estratégicas.
O valor emerge da capacidade de transformar esses direitos em benefícios concretos, como receitas, ganhos de escala, acesso a mercados, redução de riscos ou fortalecimento do poder de negociação.
A valoração torna essa capacidade economicamente visível e oferece uma referência técnica para licenciamentos, cessões, fusões, aquisições, spin-offs e captação de recursos.
A dimensão brasileira da invisibilidade
O suplemento O Brasil no Cenário Global de Investimentos Intangíveis, publicado pelo INPI em 2026, mostra que o problema brasileiro é ainda mais expressivo. Em 2023, 71,5% do investimento intangível do país não estava representado nas estatísticas oficiais. São R$ 546,5 bilhões não mensurados pelas contas nacionais, o equivalente a 5% do PIB brasileiro.
Somadas as parcelas medidas e não medidas, o investimento intangível brasileiro alcança 7,6% do PIB, superando a participação da agropecuária e do setor financeiro.
Essa invisibilidade encontra paralelo dentro das empresas. Parte do valor construído por marcas, tecnologias, métodos e conhecimento não tem seu potencial econômico refletido nos balanços. Em negociações, pode-se deixar muito dinheiro na mesa ao subestimar uma tecnologia, uma marca ou o patrimônio intangível que sustenta o negócio.
Uma pauta para a alta gestão
Ativos intangíveis não possuem valor fixo. Sua relevância varia conforme o mercado, a proteção, as alternativas disponíveis, os riscos e a finalidade da análise.
Por isso, essa é uma discussão estratégica para o negócio, que atravessa toda a organização. Seja no jurídico, na contabilidade, no marketing, na inovação, na tecnologia ou na gestão de pessoas, cada área enxerga uma dimensão do ativo. Cabe à alta gestão e aos conselhos assegurar que esse patrimônio seja compreendido de forma integrada e considerado nas decisões sobre crescimento, capital e continuidade.
Os US$ 10 trilhões investidos em intangíveis revelam que o capital já mudou de direção. Mais do que o volume de ativos intangíveis que conseguirem criar, o futuro das empresas será definido pela capacidade de reconhecê-los, protegê-los e transformá-los em valor econômico real.