Pesquisar

Do caos ao crescimento atômico: por que escalar exige uma operação sistematizada

Compartilhe

Existe uma armadilha que muitos empresários confundem com crescimento. A empresa começa a vender mais, o faturamento sobe, a equipe aumenta, novos clientes chegam. E, aparentemente, tudo está funcionando. Até que o fundador percebe que está trabalhando mais do que antes.

Passa a apagar incêndios, resolver problemas que não deveriam chegar até ele, tomar decisões o tempo todo e se tornar indispensável para que a operação continue funcionando. Isso não é escala, é complexidade. E eu aprendi essa diferença na pele.

Em 2017, fundamos a Br24, especializada em soluções para transformação digital e parceira de revenda do Bitrix24. Crescemos rapidamente em número de clientes e receita. O problema é que a operação não cresceu na mesma velocidade.

Chegamos a um ponto em que o caixa estava praticamente no fim, enquanto a folha de pagamento se aproximava. Não havia margem para erro. Eu me lembro de olhar o saldo bancário por volta do dia 10 de cada mês para entender quanto seria possível pagar. 

E o problema continua… Se uma operação depende de uma pessoa específica, crescer significa aumentar a dependência daquela pessoa. Se não existe previsibilidade financeira, mais estrutura significa mais exposição. Se tarefas críticas ainda são executadas manualmente, mais volume significa mais retrabalho, mais erros e mais custos. Foi exatamente o que aconteceu conosco.

A ironia era brutal: ajudávamos nossos clientes a estruturar processos e automatizá-los em uma ferramenta robusta e completa como o Bitrix24, enquanto, dentro da nossa própria operação, ainda não havíamos conseguido criar essa cultura. Foi uma das maiores lições da minha trajetória como empreendedor. O crescimento sem sistemas não é crescimento. É acúmulo de problemas futuros.

Uma operação saudável não pode depender permanentemente do heroísmo do fundador, do melhor vendedor, ou de determinado funcionário. Para crescer de forma consistente, precisamos transformar conhecimento individual em capacidade institucional. É aí que entram as operações sistematizadas: medidas, documentadas, replicáveis e apoiadas por gente e tecnologia. Não burocratizar a empresa, mas reduzir a dependência do improviso. 

Na Br24, começamos a construir esses sistemas justamente quando percebemos que não conseguiríamos sustentar o próximo estágio de crescimento apenas com esforço. A operação deixou de ser predominantemente manual e passou a funcionar de forma mais proativa, organizada e previsível. Foi essa mudança que criou as bases para o que viria a se tornar o Atomic Group.

Uma operação sistematizada não nasce de uma ferramenta, e esse é outro erro comum. O empresário compra um software, implementa uma automação e acredita que resolveu o problema, e na verdade ferramenta sem processo organizado apenas automatiza a desorganização. 

Para mim, uma operação forte precisa colocar três elementos em harmonia: pessoas, processos e ferramentas. As pessoas precisam saber o que fazer e por quê. Os processos precisam definir como aquilo acontece. E as ferramentas precisam aumentar a capacidade de execução. Quando os três trabalham juntos, o negócio começa a depender menos de indivíduos e mais de um sistema. Essa transição muda a natureza do crescimento.

Ao longo dessa jornada, identificamos alguns sistemas fundamentais para sustentar o crescimento de uma empresa. O primeiro é o sistema de geração de demanda: um fluxo constante de potenciais clientes. Depois vem o sistema de vendas, responsável por transformar parte dessa demanda em receita.

Na sequência, o sistema de pessoas, porque crescimento exige gente preparada. Depois, entram os sistemas financeiro e de produto e, por fim, o sistema de expansão. Mas eles não podem ser construídos de maneira aleatória. O jogo do empresário é sistêmico, e é por isso que escalar exige entender a ordem das coisas.

No B2B, essa discussão fica ainda mais importante. Um cliente mal atendido por falta de estrutura não representa apenas uma venda perdida. Pode representar uma oportunidade futura que desaparece.

E hoje existe ainda menos justificativa para manter processos críticos manuais. Ferramentas conectadas, automações e soluções baseadas em IA tornaram muito mais acessível construir operações sofisticadas. A tecnologia deixou de ser privilégio, o que aumenta a responsabilidade do empresário. Só que a vantagem não está em ter mais ferramentas, mas em saber onde e quando sistematizar.

Nós aprendemos na dificuldade. Os sistemas que construímos na Br24 e nas outras empresas do grupo nos permitiram sair do zero para um faturamento de oito dígitos, alcançar presença em 66 países e atender mais de 1,5 mil clientes.

Não foi uma ferramenta que produziu o resultado. Foi a construção de uma operação capaz de sustentar o crescimento. Essa talvez seja a principal mudança de mentalidade para o empresário: sistematizar não é engessar. É transformar execução em ativo.

Quando um processo depende exclusivamente de você, ele é uma obrigação. Quando esse processo está documentado, treinado, mensurado e replicável, ele passa a fazer parte do patrimônio operacional da empresa.

A pergunta não é se os problemas vão aparecer, porque, sinto te informar, eles vão. Você deve se perguntar: vou esperar uma crise obrigar minha empresa criar sistemas ou vou construir esses sistemas antes que a crise chegue?

Compartilhe

CEO do Atomic Group.

Leia também