Por Sandro Medeiros Alves, presidente do SINDAF-SC (Sindicato dos Auditores Estaduais de Finanças Públicas de Santa Catarina).
A cada eleição presidencial, o Brasil parece reviver o mesmo roteiro. Para alguns, o resultado das urnas representa a salvação da economia. Para outros, anuncia uma crise inevitável. Entre manifestações de euforia, previsões de catástrofe e disputas políticas, frequentemente esquecemos algo essencial: a economia de um país não começa nem termina com uma eleição.
Desde a redemocratização, em 1985, o Brasil atravessou diferentes ciclos econômicos. Enfrentou a hiperinflação, conquistou a estabilidade monetária com o Plano Real, experimentou períodos de crescimento, crises fiscais, recessões e recuperações. Tudo isso sob diferentes governos, orientações políticas e condições internacionais.
A história dos mercados financeiros também ajuda a compreender esse comportamento. Entre as eleições presidenciais de 1989 e 2022, o Ibovespa encerrou a primeira semana após o pleito em alta em oito das nove ocasiões, mesmo quando a reação inicial havia sido negativa. Em 1994, a Bolsa recuou 8,24% naquela semana. Em 2002, avançou 1,26%; em 2014, subiu 5,18%, apesar da recessão que viria no ano seguinte; e, em 2018 e 2022, registrou valorizações superiores a 3%.
Agora, em 2026, a queda superior a 18% na primeira semana representa uma reação historicamente expressiva. Mas esses números revelam uma lição importante: o comportamento imediato dos mercados reflete expectativas e percepções de risco, não uma sentença definitiva sobre o futuro da economia.
Inflação, juros, dívida pública, equilíbrio fiscal, produtividade, investimentos, emprego e cenário internacional são fatores que determinam a trajetória econômica de um país. Nenhum deles depende exclusivamente do resultado de uma eleição.
Isso não significa minimizar os desafios brasileiros. Com a dívida pública elevada e a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, existem preocupações legítimas que exigem planejamento, responsabilidade fiscal e decisões consistentes. Mas reconhecer riscos é muito diferente de transformar expectativas em certezas ou alimentar o alarmismo.
Em tempos de informações distorcidas, notícias falsas e até manifestações de intolerância ou boicote a quem pensa ou vota diferente, vale recordar que a democracia pressupõe divergências, respeito e compromisso com a verdade. O debate econômico precisa de mais dados e menos paixões.
A experiência demonstra que a solidez das finanças públicas não se constrói com discursos eleitorais, mas com planejamento, instituições fortalecidas e decisões responsáveis ao longo do tempo. Governos se alternam, mercados oscilam, mas a responsabilidade com as contas públicas permanece.
Talvez essa seja uma das maiores lições que a história nos oferece: menos previsões sobre o fim do país e mais compromisso com os fatos, com o respeito às diferenças e com a construção de um futuro sustentável.