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Por que ainda gerenciamos pessoas como se estivéssemos na Revolução Industrial?

Foto: divulgação

O trabalho está mudando em uma velocidade sem precedentes. A Inteligência Artificial, a automação, o trabalho híbrido e a economia do conhecimento estão transformando não apenas as atividades profissionais, mas também nossa relação com o tempo, a criatividade, a liderança e o propósito.

Diante desse cenário, criamos a série Smart Working na Era da Inteligência Artificial, composta por sete artigos inspirados no pensamento do sociólogo italiano Domenico De Masi e ampliados a partir da experiência e da filosofia Sapienza.

Ao longo dos textos, discutiremos a superação dos modelos de gestão herdados da Revolução Industrial, o ócio criativo, a confiança, a autonomia, a atenção, a aprendizagem organizacional, a integração entre inteligência humana e artificial e o propósito do trabalho.

Esta série nasceu porque não basta incorporar novas tecnologias às antigas formas de administrar. É preciso repensar o próprio significado do trabalho.

Nosso objetivo é contribuir para a construção de organizações mais inteligentes, criativas e humanas, nas quais a tecnologia amplie as capacidades das pessoas e o conhecimento seja colocado a serviço da inovação e da transformação.

Mais do que prever o futuro do trabalho, queremos provocar uma reflexão sobre o futuro que desejamos construir.

Não se trata apenas de trabalhar mais ou trabalhar menos. Trata-se de trabalhar melhor, com inteligência, liberdade, responsabilidade, criatividade e propósito.

Introdução

Vivemos uma das maiores transformações da história do trabalho. Nunca tivemos tanto conhecimento disponível, tanta tecnologia conectando pessoas, tantas ferramentas capazes de automatizar tarefas e ampliar nossa capacidade intelectual. Ao mesmo tempo, nunca ouvimos falar tanto em ansiedade, esgotamento profissional, perda de sentido no trabalho e dificuldade para inovar.

Existe um paradoxo evidente. Enquanto a economia passou a depender cada vez mais do conhecimento, muitas organizações continuam sendo administradas segundo princípios concebidos para a Revolução Industrial.

Mudaram as ferramentas. Mudaram os mercados. Mudaram as profissões. Mas, em muitos casos, a lógica de gestão permanece praticamente a mesma. Ainda valorizamos mais o tempo de permanência do que a qualidade da contribuição.

Ainda medimos dedicação pelo número de horas trabalhadas. Ainda confundimos presença física com produtividade. Ainda acreditamos que controlar pessoas produz melhores resultados do que confiar nelas. E, ainda entendemos empresas boa e produtiva pela quantidade de funcionários. 

A pergunta que deveria inquietar qualquer líder é simples: “por que continuamos gerenciando profissionais do século XXI com modelos criados para trabalhadores do século XIX?”

Essa talvez seja uma das questões mais importantes para qualquer organização que deseje sobreviver nas próximas décadas.

A herança invisível da Revolução Industrial 

A Revolução Industrial representou um dos maiores avanços da humanidade. Ela permitiu produzir em larga escala, reduzir custos, democratizar o acesso a bens e transformar profundamente a economia mundial. 

Para que esse modelo funcionasse, era necessário desenvolver uma nova forma de organizar o trabalho. O trabalhador precisava estar presente. Os horários precisavam ser rigorosamente definidos. As tarefas deveriam ser repetidas exatamente da mesma maneira. A eficiência dependia da padronização.

Frederick Taylor desenvolveu a Administração Científica. Henry Ford aperfeiçoou a produção em série. Max Weber estruturou a burocracia moderna.

Todos contribuíram decisivamente para aumentar a produtividade industrial. O problema é que esses modelos nasceram para administrar máquinas, processos repetitivos e atividades previsíveis. Hoje, entretanto, o principal recurso das organizações já não são as máquinas.

São as pessoas. Mais precisamente, sua capacidade de imaginar, interpretar, aprender, conectar conhecimentos e criar soluções inéditas. E, a criatividade não funciona sob a mesma lógica da linha de montagem.

O verdadeiro produto da economia contemporânea 

Quando observamos as empresas mais valiosas do mundo, percebemos algo curioso. Seu patrimônio não está concentrado em fábricas gigantescas. Está concentrado em conhecimento.

Software, algoritmos, marcas, patentes, experiência do cliente, design, pesquisa, cultura organizacional, relacionamentos, dados. O ativo mais importante deixou de ser físico. Passou a ser intelectual; e, essa mudança altera completamente a forma como o trabalho deveria ser organizado.

Não faz sentido exigir que um pesquisador, um designer, um professor, um cientista, um empreendedor ou que um desenvolvedor produzam ideias seguindo exatamente os mesmos mecanismos utilizados para fabricar parafusos.

Ideias não obedecem ao relógio. A criatividade não surge por decreto. Inovação não nasce da vigilância permanente. Ela nasce da liberdade para experimentar, da diversidade de experiências, da curiosidade e da capacidade de estabelecer conexões improváveis.

Domenico De Masi e a ruptura necessária 

Foi justamente essa transformação que Domenico De Masi percebeu antes de grande parte do mundo, enquanto muitos ainda discutiam produtividade industrial, ele observava o nascimento da sociedade pós-industrial.

Segundo De Masi, o trabalho intelectual possui características completamente diferentes do trabalho manual. Ele exige autonomia, flexibilidade, confiança, aprendizagem contínua, tempo para reflexão, tempo para contemplação, tempo para imaginar.

Foi nesse contexto que surgiu um dos conceitos mais conhecidos do sociólogo italiano: o ócio criativo, mas que infelizmente, na grande maioria das vezes quando as pessoas falam sobre este termo não fazem ideia do que estão falando.

Ócio criativo nunca significou preguiça, ausência de trabalho e muito menos falta de disciplina. Ao contrário. Significa compreender que as melhores ideias frequentemente surgem quando estudo, trabalho e prazer deixam de ser compartimentos separados da vida.

Uma conversa, uma caminhada, uma viagem, um concerto, um museu, uma boa leitura, uma experiência cultural. Tudo isso pode produzir conhecimento tão relevante quanto horas diante de um computador.

Uma das frases que sempre vem a minha mente quando falo sobre ócio criativo, e que eu ouvia, quando atuei com De Masi na Itália e no Brasil, era : “Como dizer para a minha mulher que olhando pela janela também estou trabalhando.”

O cérebro humano continua trabalhando mesmo quando aparentemente estamos descansando. Na verdade, muitas vezes ele trabalha melhor.

O erro das organizações 

Apesar dessa transformação, inúmeras empresas continuam recompensando comportamentos incompatíveis com a economia do conhecimento. Valorizam quem permanece mais tempo no escritório. Premiam agendas lotadas. Celebram reuniões intermináveis. Transformam disponibilidade permanente em sinônimo de comprometimento. Confundem urgência com importância. 

Como consequência, profissionais talentosos gastam grande parte da energia respondendo mensagens, participando de reuniões desnecessárias e apagando incêndios.

Sobra pouco espaço para aquilo que realmente produz valor: pensar, questionar, aprender, criar, experimentar. Esse talvez seja o maior desperdício da economia contemporânea.

Não desperdiçamos apenas tempo. Desperdiçamos inteligência.

A Inteligência Artificial muda novamente o jogo 

Se a sociedade do conhecimento já exigia uma nova forma de trabalhar, a Inteligência Artificial torna essa mudança inevitável. Hoje, algoritmos conseguem produzir textos, analisar grandes volumes de dados, traduzir idiomas, escrever códigos, criar imagens, automatizar processos complexos.

Isso significa que inúmeras atividades intelectuais repetitivas deixarão de ser exclusivamente humanas. Na verdade, não substituirá os humanos, mas as atividades desumanas. 

E isso não reduz a importância das pessoas, pelo contrário. Eleva ainda mais aquilo que apenas seres humanos conseguem fazer de forma plena, como: interpretar contextos, construir significado, exercer julgamento ético, demonstrar empatia e compaixão, criar relações de confiança, imaginar futuros possíveis, formular boas perguntas, conectar conhecimentos aparentemente desconexos.

Nesse novo cenário, a vantagem competitiva deixa de ser simplesmente possuir informação, visto que a informação está disponível para todos. A verdadeira vantagem passa a ser transformar informação em Sapienza. 

Da Sociedade do Conhecimento para a Sociedade da Inteligência Ampliada 

Talvez estejamos vivendo uma nova etapa da evolução proposta por Domenico De Masi, já que a sociedade industrial foi baseada na força física; e, a sociedade pós-industrial valorizou o conhecimento; e neste momento estamos começando a entrar em uma Sociedade da Inteligência Ampliada, onde nela, seres humanos e Inteligência Artificial trabalham juntos, aumentando as suas capacidades. 

A máquina amplia velocidade, o ser humano amplia significado, a IA encontra padrões, as pessoas encontram propósito, os algoritmos oferecem respostas, os humanos escolhem quais perguntas realmente importam.

Não é uma disputa entre homens e máquinas. É uma parceria.

É exatamente por isso que precisamos reinventar profundamente o conceito de Smart Working.

O Smart Working como filosofia 

Durante muitos anos, Smart Working foi associado apenas ao trabalho remoto; e, está é uma visão limitada, onde trabalhar de casa não significa trabalhar de forma inteligente. O verdadeiro Smart Working representa uma filosofia organizacional baseada em alguns princípios fundamentais: confiança antes do controle; autonomia acompanhada de responsabilidade; foco em resultados, não em horas trabalhadas; aprendizagem permanente; colaboração interdisciplinar; equilíbrio entre tecnologia e humanidade; criatividade como competência estratégica; inovação como consequência de uma cultura que permite experimentar.

Mais do que um modelo de gestão, trata-se de uma nova compreensão sobre a natureza do trabalho humano.

A contribuição da Sapienza 

Nestes quase 20 anos de Sapienza e quase 35 anos de carreira, tive a oportunidade de conviver em vários contextos, culturas e negócios; e, isto reforça a nossa crença que o conhecimento só adquire sentido quando transforma pessoas, vidas, negócios, famílias. 

E quando falo que não é preciso trabalhar muito, mas é preciso trabalhar certo é porque entendo que Smart Working não é apenas uma estratégia empresarial. É uma filosofia de desenvolvimento humano, que transborda profissionalmente e fortalece os negócios. 

Organizações inteligentes não são aquelas que utilizam mais tecnologia. São aquelas que conseguem transformar conhecimento em impacto positivo, estimulando a curiosidade, compartilham saberes, constroem comunidades de aprendizagem, promovendo uma autonomia responsável.

Utilizam a Inteligência Artificial para ampliar capacidades humanas, jamais para substituir aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. Minha proposta é de ampliar a reflexão iniciada por Domenico De Masi, inclusive para dar continuidade ao seu legado. 

Se ele demonstrou que a sociedade industrial precisava dar lugar à sociedade do conhecimento, acreditamos que agora devemos avançar para uma sociedade na qual inteligência humana e inteligência artificial cooperam para produzir inovação, prosperidade e bem-estar.

O desafio não é apenas trabalhar mais. Nem trabalhar menos. É trabalhar melhor. Com mais propósito, mais criatividade, colaboração. Mais humanidade.

Reflexão Final

Talvez a pergunta mais importante para qualquer líder não seja: “como aumentar a produtividade?”

Talvez a pergunta correta seja: “como criar um ambiente onde a inteligência das pessoas possa florescer?”

Porque as organizações não inovam, quem inova são as pessoas. Tecnologias não criam cultura, quem cria cultura são as pessoas. Empresas não aprendem, quem aprende são as pessoas. 

O futuro do trabalho não será definido pelas máquinas. Será definido pela maneira como escolhemos organizar o potencial humano em uma era de inteligência ampliada. 

E talvez seja exatamente este o maior desafio do nosso tempo. Não aprender a conviver com a Inteligência Artificial. Mas reaprender a confiar na inteligência humana.

No próximo artigo: o ócio criativo não é descanso: é o laboratório invisível da inovação. Uma reflexão sobre por que as melhores ideias raramente surgem quando estamos excessivamente ocupados.

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CEO da Sapienza.

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