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Na véspera da Copa, o verdadeiro Brasilcore atende por Pix

Foto: divulgação

Por Rafaela Helbing, cientista de dados e CEO da Data Rudder.

O Pix deixou de ser apenas um meio de pagamento para se tornar uma das infraestruturas de dados mais relevantes do sistema financeiro brasileiro. Em poucos anos, passou a concentrar escala, velocidade e capilaridade em um nível que nenhum outro instrumento havia alcançado simultaneamente. Nesse processo, acabou ganhando também um papel simbólico e virou um dos exemplos mais concretos do que se convencionou chamar de “Brasilcore“,  a capacidade de transformar soluções locais em referência global.

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Após seis anos do lançamento, o Pix já conta com cerca de 170 milhões de usuários (cerca de 80% da população) e respondeu, somente em janeiro de 2026, por mais de 7 bilhões de transações realizadas , segundo números do Banco Central, provando seu sucesso ao atingir uma escala praticamente universal no país. 

Essa escala tem implicações que vão além da experiência do usuário. Diferente de outros meios de pagamento, o Pix é nativamente digital, padronizado e operado em tempo real. Ou seja, cada transação do sistema gera um dado estruturado, rastreável e imediatamente disponível para análise. Em outras palavras, o sistema consolidou uma base transacional contínua, que passou a ser utilizada não apenas para liquidação financeira, mas também para monitoramento de risco, prevenção à fraude e cumprimento regulatório.

É nesse ponto que o Pix se torna mais estratégico do que muitas iniciativas anteriores e passa a chamar atenção até mesmo fora do Brasil. O modelo combina eficiência operacional com inclusão financeira em larga escala, reduzindo custos e ampliando acesso. Não por acaso, diferentes países vêm acelerando seus próprios sistemas de pagamentos instantâneos ou fortalecendo iniciativas já existentes, como FedNow nos EUA; SEPA Instant na Europa; SPEI no México e UPI na Índia. 

Por aqui, o próprio Pix dá seus primeiros passos rumo à internacionalização em prol de facilitar a vida dos brasileiros no exterior. Atualmente, já conseguimos utilizar soluções integradas ao Pix em países como Argentina e Portugal, com pagamentos em lojas físicas e online através da leitura de QR Codes, convertendo automaticamente o valor em reais para a moeda local. Há ainda discussões envolvendo interoperabilidade regional na América Latina e integração com ecossistemas de Open Finance, ampliando o potencial do sistema para além do mercado doméstico. 

Mas vale dizer que toda infraestrutura que opera em alta escala também amplia sua superfície de risco. Isso porque a velocidade e a disponibilidade permanente do PIX criaram um ambiente propício para a evolução de fraudes, que migraram rapidamente de abordagens mais simples para estratégias sofisticadas, muitas vezes combinando engenharia social com automação.

Diante deste cenário, modelos tradicionais baseados em regras estáticas ou análises posteriores à transação não acompanham a dinâmica de um sistema em tempo real e necessitam de mudanças. A prevenção à fraude começa a depender de análise comportamental contínua, leitura de contexto e capacidade de decisão instantânea. Esse movimento também impulsionou o desenvolvimento de novas soluções por empresas de tecnologia, fintechs e startups, que passaram a criar ferramentas de IA antifraude específicas para a dinâmica do Pix. 

O desafio agora não está apenas na detecção, mas na capacidade de fazer isso com precisão. O Brasil possui uma grande diversidade de perfis que realizam transações, citamos trabalhadores informais, pequenos empreendedores, prestadores de serviço com renda variável e usuários com diferentes níveis de maturidade financeira. Com isso, modelos que não incorporam essa diversidade tendem a gerar falsos positivos, impactando diretamente a experiência do usuário e, em casos mais críticos, restringindo o acesso ao sistema financeiro.

Esse equilíbrio entre segurança e fluidez é um dos pontos centrais da próxima fase do Pix, sendo ainda mais relevante diante das evoluções previstas para o sistema. Funcionalidades como o Pix automático, voltado para pagamentos recorrentes, e o Pix parcelado, que aproxima o modelo da lógica de crédito, devem ampliar ainda mais o volume e a complexidade das transações. Ao mesmo tempo em que a expansão internacional e a integração com o Open Finance indicam que o Pix caminha para se consolidar como uma infraestrutura financeira mais ampla, conectando diferentes serviços e mercados. 

É neste ponto que o dado deixa de ser um subproduto da transação e passa a ser um ativo estratégico. Podemos dizer que é ele quem sustenta não só a prevenção à fraude, mas a confiança no sistema como um todo. Talvez essa capacidade de criar soluções inovadoras e ainda construir infraestruturas que operam com escala, eficiência e inteligência seja um dos aspectos menos visíveis e mais relevantes do Brasilcore. 

E, por fim, o Pix mostrou ser possível avançar e o próximo passo é garantir que essa base continue evoluindo com o mesmo nível de sofisticação,  especialmente na forma como interpreta e protege os dados que gera. Afinal, a inovação só se sustenta quando é acompanhada de confiança.

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