Abril e maio foram dois meses atipicos para mim enquanto colunista e produtor de conteúdo. Pela primeira vez em muito tempo, eu senti vontade de não falar.
Não por falta de trabalho. Não por falta de acontecimentos. Muito menos por falta de pautas. Talvez justamente pelo excesso delas.
Simplesmente, não senti vontade de falar, e achei que não tinha o que falar.
Vivemos há anos o fenômeno da hiperconectividade. Mas talvez já tenhamos ultrapassado essa etapa. Talvez estejamos vivendo a pós-hiperconectividade. Afinal, estar conectado deixou de ser novidade há muito tempo. Todos já estamos conectados. O tempo inteiro.
Consumimos conteúdo e informação em excesso. Assistimos e ouvimos streaming em excesso. E, inevitavelmente, também produzimos em excesso.
E o perigo, é que não absorvemos em excesso.
Todos podem falar. Então todos falam.
E talvez exista um risco silencioso nisso tudo: o risco do discurso vazio.
Talvez, você me diga que a IA, possa ajudar a filtrar, selecionar melhor os conteúdos e criar com autonomia e competência, mas está aí o fenômeno de AI Slop, que em tradução livre basicamente quer dizer: desleixo de IA. Ou seja, o volume avassalador de conteúdos criados por IA, sem nenhum critério, de discurso vazio e irrelevantes.
Recentemente, me peguei pensando muito sobre a obrigação invisível da presença. Sobre a sensação de que precisamos continuar emitindo opinião, postando stories, aparecendo, comentando, performando relevância. Como se desaparecer por alguns dias fosse quase um fracasso simbólico ou mercadológico.
Mas ninguém é eficiente o tempo todo. Aliás, ninguém é profundo o tempo todo.
E talvez esse seja um dos maiores conflitos da nossa geração hiperconectada: a dificuldade de aceitar pausas.
Existe uma frase que me acompanha há muito tempo, da música de Duca Leindecker em parceria com Humberto Gessinger: “eu tenho fé na força do silêncio.”
E talvez eu tenha mesmo.
Porque o silêncio não necessariamente representa ausência. Às vezes representa responsabilidade, maturidade, ou ainda, alguém entendendo que ainda não possui algo relevante o suficiente para transformar em discurso.
Silêncio, nesse caso, talvez seja até uma espécie de oração não-verbal.
E talvez essa seja uma oração importantes no dia a dia das marcas, empresas, personas…
Vivemos um momento onde a comunicação constante parece ser confundida com valor. Mas quantidade não necessariamente produz profundidade. Muito pelo contrário. Em muitos casos, o excesso esvazia.
Até a água em excesso faz mal.
E talvez a comunicação também faça.
Ao mesmo tempo em que vejo pessoas completamente imersas na lógica da exposição contínua, também vejo movimentos opostos acontecendo.
O jovem tenista brasileiro Guto Miguel, por exemplo, simplesmente saiu das redes sociais. Não parece interessado em alimentar diariamente a máquina da própria imagem. Parece mais preocupado em jogar, treinar, evoluir e buscar sua melhor versão. Talvez não a melhor versão do tênis brasileiro. Nem do mundo. Apenas a melhor versão de si mesmo.
E isso diz muito.
Porque, novamente: silêncio também comunica.
Por outro lado, observo movimentos completamente diferentes, mas igualmente interessantes. Vejo João Adibe, alguém que acompanho bastante, se conectando ao universo de Toguro. Dois personagens que, para muita gente, talvez não tenham absolutamente nada em comum. Mas que entendem profundamente a dinâmica contemporânea da atenção.
Talvez o João Adibe, enquanto marca, enquanto liderança e enquanto comunicação, já tivesse falado muita coisa sobre a Cimed, tanta coisa que já não saiba mais o que falar. E quando se precisa de novos símbolos, novos públicos, novas narrativas, não saber o que falar pode se tornar um problemão. E talvez o Toguro, dentro da própria lógica do personagem Toguro, também precisasse continuar expandindo o próprio volume de presença.
E isso gera pólvora. Quando eu digo pólvora, é justamente o oposto de AI Slop, é o conteúdo relevante feito de brainstorm, cocriação e relevância.
E só assim que se gera entrada em novos mercados, novas audiências, novas camadas culturais.
Porque hoje a atenção virou ativo.
E talvez este seja o centro do problema contemporâneo: quanto mais todos podem falar, mais difícil fica produzir algo que realmente permaneça.
Então eu me pergunto:
De que lado estamos?
Do lado de quem precisa falar o tempo inteiro? Seguir e criar trends? Viralizar? Ocupar espaço diariamente? Se adaptar continuamente ao algoritmo?
Ou do lado de quem fala menos, aparece menos, talvez tenha poucos likes, poucos comentários, mas ainda acredita na entrega de valor, na precisão e na profundidade?
Porque às vezes eu sinto que estamos todos, em maior ou menor grau, pintando a bunda de vermelho e nos pendurando num poste esperando atenção. E o mais curioso é que todos percebem isso acontecendo.
Talvez o excesso de comunicação esteja enfraquecendo a própria mensagem e falar menos devolva peso às palavras.
E talvez o verdadeiro desafio da nossa geração pós-hiperconectada não seja aprender a falar.
Talvez seja reaprender o valor do silêncio e de desconectar.