Nos últimos anos, termos como inovação aberta, hackathons, Startup Weekends e desafios de inovação passaram a fazer parte do cotidiano de empresas, governos e instituições que buscam se manter relevantes em um cenário de rápidas transformações. Porém, à medida que esses conceitos se popularizam, cresce também uma confusão que pode comprometer os resultados esperados.
Nesta semana a entrevista foi com a especialista Olivia Fernandes Boretti, que é mestre em Inovação e Empreendedorismo, ativista de inovação jurídica, facilitadora de inovação e criatividade, atuando na articulação de ecossistemas de startups deeptech e inovação pública no Brasil.
Atualmente, está como Coordenadora de Programas de Aceleração da ABStartups, inclusive acumula mais de 15 mil horas de atuação em ambientes de inovação, esta coluna propõe uma discussão importante: afinal, eventos como hackathons e Startup Weekends servem para resolver problemas das organizações ou para formar pessoas capazes de inovar?
Dani Glück: Quando falamos em inovação aberta, do que realmente estamos falando?
Olívia Boretti: A inovação aberta vai muito além da simples coleta de ideias externas. O conceito, difundido por Henry Chesbrough, parte da premissa de que o conhecimento está distribuído na sociedade e que organizações inovadoras precisam criar mecanismos para que esse conhecimento circule de forma intencional entre diferentes atores. Isso significa que a inovação aberta exige estratégia, governança, critérios claros, gestão da propriedade intelectual, definição de objetivos e mecanismos para transformar conhecimento em valor. Não se trata apenas de ouvir pessoas, mas de estruturar processos que permitam absorver, desenvolver e aplicar soluções de forma consistente.
Dani Glück: Por que tantas organizações associam inovação aberta a hackathons e competições de fim de semana?
Olívia Boretti: Porque, superficialmente, os formatos parecem semelhantes. Em ambos encontramos equipes multidisciplinares, mentores, desafios e apresentações finais. A linguagem da colaboração, da cocriação e da participação coletiva também está presente. No entanto, existe uma diferença fundamental: hackathons, Startup Weekends e ideathons são, antes de tudo, ambientes de aprendizagem prática. Eles funcionam como escolas de inovação, onde as pessoas desenvolvem competências, aprendem metodologias, criam conexões e experimentam novas formas de resolver problemas. Quando uma empresa espera resolver desafios complexos em apenas 54 horas, corre o risco de gerar frustração tanto para a organização quanto para os participantes.
Dani Glück: Então os hackathons não servem para gerar soluções?
Olívia Boretti: Servem, mas essa não deveria ser sua principal expectativa. O maior resultado de um hackathon não está necessariamente no protótipo apresentado ao final do evento. O verdadeiro valor está no desenvolvimento de talentos, na formação de redes de relacionamento, na criação de uma cultura de colaboração e no fortalecimento da capacidade das pessoas de lidar com problemas complexos. As ideias que surgem são importantes, mas representam um bônus. O principal legado está no aprendizado coletivo.
Dani Glück: Qual a diferença entre um evento de inovação e um programa de inovação aberta?
Olívia Boretti: Um evento de inovação cria oportunidades de descoberta e experimentação. Já um programa de inovação aberta é estruturado para resolver desafios específicos. Quando uma organização deseja implementar soluções reais, precisa construir um processo mais robusto. Isso envolve definir claramente o problema, estabelecer critérios de seleção, prever mecanismos de contratação, estruturar testes, pilotos e escalabilidade, além de tratar aspectos jurídicos e de propriedade intelectual. Experiências como a plataforma Desafios da Enap mostram que inovação aberta eficaz exige planejamento, governança e continuidade. Não basta lançar um desafio e esperar que uma solução pronta apareça ao final de um fim de semana.
Dani Glück: O que empresas e instituições podem fazer para aproveitar melhor esses dois universos?
Olívia Boretti: O primeiro passo é alinhar expectativas. Hackathons e Startup Weekends devem ser vistos como investimentos em formação, cultura de inovação e aproximação com o ecossistema. São espaços ideais para identificar talentos, compreender tendências e fortalecer relacionamentos. Já os programas de inovação aberta devem ser utilizados quando existe a intenção concreta de desenvolver, testar e implementar soluções. Nesse caso, é necessário estruturar editais, desafios, programas de aceleração ou mecanismos formais de contratação. O mais interessante é que esses dois universos podem se complementar. Um evento pode revelar talentos e ideias promissoras, que posteriormente são direcionados para programas mais estruturados de desenvolvimento e implementação.
Dani Glück: Qual é a principal mensagem para quem atua com inovação?
Olivia Boretti: Precisamos parar de enxergar hackathons e Startup Weekends como fábricas de soluções baratas. Esses eventos são espaços de aprendizagem intensiva, onde pessoas desenvolvem competências, criam conexões e experimentam novas formas de pensar. É justamente essa formação humana que sustenta ecossistemas inovadores no longo prazo. Quando entendemos a diferença entre aprendizagem e implementação, conseguimos construir estratégias mais maduras de inovação aberta. Os eventos continuam cumprindo seu papel de formar talentos e fortalecer redes, enquanto os programas estruturados assumem a responsabilidade de transformar conhecimento em soluções concretas. A inovação aberta acontece quando essas duas dimensões se conectam de forma intencional. Separar seus papéis — e ao mesmo tempo criar pontes entre eles — é o que permite transformar inovação de discurso em prática.
Como alguém que atua diariamente conectando startups, empresas, governo e ecossistemas de inovação, acredito que a grande reflexão deste tema está na gestão das expectativas. Nem todo desafio precisa de uma solução pronta em 54 horas, assim como nem toda iniciativa de inovação aberta começa com um edital ou programa estruturado. Muitas vezes, a transformação nasce justamente dos espaços de experimentação, das conexões inesperadas e do desenvolvimento de pessoas capazes de enxergar problemas sob novas perspectivas.
Quando compreendemos que hackathons e Startup Weekends são poderosas ferramentas de formação e que programas de inovação aberta possuem objetivos, métodos e estruturas próprias, conseguimos construir jornadas mais maduras, sustentáveis e efetivas. Afinal, a verdadeira inovação não acontece apenas quando encontramos respostas, mas quando desenvolvemos pessoas, redes e ambientes preparados para lidar com os desafios do futuro.
E esta semana fica a reflexão a todos leitores: se a inovação depende de pessoas, redes e colaboração, sua empresa está construindo esse ambiente ou apenas patrocinando eventos?