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O indicador que ainda falta no painel do RH

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Turnover, absenteísmo, clima, produtividade, engajamento e saúde mental já fazem parte da rotina dos Recursos Humanos. Mas existe um indicador capaz de afetar todos eles e que ainda recebe pouca atenção dentro das empresas: a saúde financeira dos colaboradores.

Afinal, os problemas financeiros não ficam em casa quando o expediente começa.

A preocupação com a próxima fatura, uma dívida que saiu do controle, a falta de dinheiro para uma emergência ou a necessidade de complementar a renda acompanham o profissional durante o dia. E podem aparecer na forma de ansiedade, dificuldade de concentração, perda de produtividade, conflitos e esgotamento emocional.

Os números ajudam a dimensionar o problema.

A edição mais recente do Raio X do Investidor Brasileiro, da ANBIMA em parceria com o Datafolha, aponta que 29% dos brasileiros possuem dívidas em atraso, o equivalente a aproximadamente 49 milhões de pessoas. A pesquisa também mostra que 47% da população apresenta alto nível de estresse financeiro.

Quando olhamos especificamente para o ambiente de trabalho, o cenário também preocupa. Pesquisa da SalaryFits, empresa da Serasa Experian, mostrou que 54% dos trabalhadores afirmam que o salário não é suficiente para cobrir suas despesas, 49% precisam buscar alguma renda extra e 66% relatam aumento do estresse em razão do endividamento.

Não significa que todo profissional endividado terá baixo desempenho. Mas significa que ignorar a relação entre dinheiro, saúde mental e trabalho já não parece razoável.

Quando a urgência financeira encontra as apostas

Há ainda um novo componente nessa equação: as apostas online.

Segundo o Raio X do Investidor Brasileiro, 17% da população realizou apostas online em 2025. Entre os apostadores, 39% dizem apostar em busca de dinheiro rápido, especialmente em momentos de necessidade.

Esse dado deveria chamar a atenção das empresas.

Quando alguém que já está financeiramente pressionado começa a enxergar uma aposta como saída para pagar contas ou resolver dificuldades, o risco aumenta. A urgência passa a disputar espaço com a racionalidade.

E o problema pode chegar silenciosamente ao ambiente profissional: novos empréstimos, pedidos frequentes de adiantamento, necessidade de um segundo trabalho, perda de foco e maior sofrimento emocional.

Por isso, talvez seja hora de ampliar o conceito de bem-estar corporativo.

Educação financeira também pode ser política de pessoas

Falar de saúde financeira dentro das empresas não significa investigar quanto cada funcionário deve, acompanhar seu CPF ou interferir em suas escolhas pessoais.

Significa criar condições para que as pessoas tenham mais conhecimento e ferramentas para tomar decisões melhores.

O RH pode acompanhar a percepção de saúde financeira de forma anônima e agregada, incluir o tema nas pesquisas de bem-estar e, principalmente, desenvolver ações contínuas de educação financeira.

E isso precisa ir além de uma palestra sobre investimentos.

Antes de falar em rentabilidade, muitas pessoas precisam aprender a organizar o orçamento, utilizar o crédito de maneira consciente, reconhecer sinais de superendividamento, construir uma reserva de emergência, proteger-se de golpes, compreender os riscos das apostas e planejar o futuro.

Existe demanda para isso. Na pesquisa da Serasa Experian, 83% dos trabalhadores disseram esperar algum tipo de apoio da empresa para sua saúde financeira.

Talvez educação financeira deva começar a ser vista não apenas como conteúdo, mas como parte da estratégia de saúde e desenvolvimento das pessoas.

Uma pergunta para quem lidera empresas

Empresas investem em saúde emocional, desenvolvimento de carreira, benefícios, qualidade de vida e formação de lideranças. Faz sentido.

Mas talvez exista uma parte importante desse cuidado ainda fora do radar.

Quantas pessoas da sua equipe chegam todos os dias para trabalhar enquanto tentam, silenciosamente, descobrir como pagar a próxima conta?

Quantas estão tomando decisões ruins não por falta de capacidade profissional, mas porque vivem sob constante pressão financeira?

E quantas poderiam mudar essa trajetória se tivessem acesso a conhecimento, orientação e ferramentas antes que a situação se tornasse mais grave?

Talvez esteja na hora de o empresário olhar para a educação financeira não como um benefício adicional, mas como parte do cuidado com quem constrói a empresa todos os dias.

Não é preciso saber quanto cada colaborador tem na conta.

Mas talvez seja importante começar a perguntar como anda a saúde financeira das pessoas que fazem o negócio acontecer.

E, mais importante do que perguntar, criar dentro da empresa um espaço permanente para ajudá-las a construir uma relação mais saudável com o dinheiro.

Porque cuidar de pessoas também é ajudá-las a viver com menos medo do amanhã.

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Mestra em contabilidade e controladoria e especialista em finanças e investimentos. Autora de livros e artigos, palestrante, mentora e fundadora do Mulheres nas Finanças.

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