No início deste ano, a Confederação Nacional da Indústria divulgou um levantamento que resume bem o momento vivido por muitas empresas brasileiras e catarinenses: a intenção de investimento da indústria caiu de 72%, em 2025, para 56%, em 2026, uma queda de 16 pontos percentuais em pouco mais de 12 meses.
Entre as empresas que decidiram não investir neste ano, 38% não abandonaram o projeto por falta de dinheiro: elas adiaram ou cancelaram algo que já estava em andamento, com um orçamento aprovado e uma equipe alocada.
O sintoma mais comum da indecisão é pedir mais dados
Esse detalhe é o que mais chamou a minha atenção, porque ele isola a variável dinheiro da equação.
Um projeto com orçamento aprovado e equipe alocada já superou a barreira financeira. A empresa decidiu, no papel, que tinha recursos para seguir em frente. Se mesmo assim o projeto para no meio do caminho, o que trava não é mais uma questão de caixa: é uma questão de decisão. Alguém, em algum ponto da cadeia de aprovação, deixou de confirmar o que já havia sido validado.
Isso costuma acontecer quando a diretoria espera um nível de certeza que o mercado dificilmente entrega antes de dar o próximo passo. Enquanto isso, o seu concorrente decide com a informação que tem, testando, errando e ajustando o que achar necessário.
Dinheiro não é o fator decisivo
Esse cenário conversa diretamente com o dado da CNI: dos 38% que adiaram ou cancelaram projetos que já tinham orçamento aprovado, a maioria não esbarrou em falta de caixa, esbarrou em um processo de aprovação que nunca termina.
Eu acompanho o dia a dia de empresas de tecnologia e de indústria há alguns anos, e vejo esse mesmo padrão se repetir. Raramente é o caixa que trava uma empresa: quase sempre é o medo de errar diante de sócios, investidores ou da própria equipe, somado à expectativa de que existe uma decisão perfeita esperando para ser tomada.
Muitas empresas ficam presas nesses ciclos intermináveis de aprovação, em que um comitê revisa uma proposta, pede ajustes, encaminha para outro comitê, que pede novos ajustes… Até que o projeto, que poderia ter sido testado em poucas semanas, se perde no meio do caminho.
Mas é possível seguir outro caminho: testar uma versão pequena da ideia, errar o quanto antes, ajustar o que for necessário e seguir em frento. Em geral, esses são os negócios que prosperam, porque sabem que o custo de um erro pequeno e corrigido a tempo costuma ser bem menor do que o custo de meses de indecisão.
O que aprendi tendo que decidir sem todos os números
Lembro de um momento específico na SysMiddle em que precisei tomar uma decisão sem ter todos os números que gostaria. Avaliávamos se valia a pena redirecionar parte da equipe para atender a uma demanda que surgia em um setor no qual ainda não tínhamos experiência acumulada. Não existia um estudo de mercado para consultar, não havia histórico capaz de nos orientar com segurança, e o prazo para responder ao cliente era extremamente curto.
Na época, optei por avançar com um piloto de escopo reduzido e um prazo curto para avaliar o resultado, em vez de esperar semanas reunindo dados que, na prática, ainda não existiam para aquele mercado específico.
O piloto trouxe alguns acertos e também revelou falhas que não tínhamos previsto. Foi justamente o erro identificado logo nas primeiras semanas que permitiu ajustar o modelo antes de comprometer mais recursos. Se a decisão tivesse esperado um trimestre inteiro, o aprendizado teria custado bem mais caro e teria chegado tarde demais para fazer alguma diferença.
Um risco calculado é estrutura, e não pressa
Sabe o que costuma separar uma empresa que avança de uma empresa que permanece parada, esperando o momento ideal? A disposição de tratar a incerteza como parte do trabalho, em vez de tentar eliminá-la por completo.
É por isso que a leitura mais interessante dos dados apontados pela CNI está menos na falta de capital e mais na dificuldade de decidir com a informação disponível. Muitas empresas têm caixa, linhas de crédito e capital próprio reservado, e mesmo assim preferem esperar por um sinal dos céus.
Um risco calculado é o ponto de equilíbrio entre avançar sem dado nenhum e esperar até ter dados demais: existe informação suficiente para reduzir a incerteza a um nível administrável, mas não tanta a ponto do mercado já ter mudado quando a decisão for tomada.
As empresas que entendem isso testam hipóteses pequenas antes de comprometer orçamentos grandes, definem prazos curtos para avaliar os resultados e aceitam que parte dessas apostas vai dar errado.
Decidir primeiro, buscar certeza depois
Fundar e conduzir a SysMiddle ao longo desses anos me ensinou que a decisão mais cara é quase sempre a que fica parada, aguardando um nível de certeza que a maioria dos mercados, principalmente os de tecnologia, simplesmente não costuma oferecer.
A pesquisa da CNI é só mais um lembrete de que, quando o ambiente fica mais incerto, a tentação natural é esperar mais um pouco. Mas são justamente esses momentos de incerteza que separam as empresas que aprendem a decidir com o que têm em mãos das empresas que continuam esperando por uma certeza que, na maior parte das vezes, não chega.