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O santinho que vira lixo antes de virar voto

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Você já parou em um sinal vermelho e recebeu, pela janela do carro, o folheto de algum candidato? Já chegou em casa e encontrou a caixa de correio cheia de panfletos? Ou caminhou pela rua e saiu com um punhado de papéis com números, nomes, fotos e propostas?

Agora, a pergunta que interessa: o quanto desse papel foi realmente útil para você?

Quantas vezes você guardou um santinho para consultar depois? Quantas vezes um panfleto foi decisivo para conhecer melhor um candidato ou para definir o seu voto? Na maioria dos casos, esses materiais ficam conosco por poucos minutos antes de irem para o lixo. E é justamente aí que a conversa precisa ir além.

A campanha para as eleições de 2026 está nas ruas desde 16 de agosto, e a entrega de material impresso é permitida até as 22h de 3 de outubro, véspera do primeiro turno (TSE). Nesse intervalo de sete semanas, uma quantidade enorme de santinhos, folders, adesivos e cartazes é produzida, distribuída e, em boa parte, descartada. Um detalhe curioso das regras eleitorais: todo material impresso precisa trazer o CNPJ ou CPF de quem produziu e de quem contratou, além da tiragem. Ou seja, a quantidade existe e está declarada. O que quase ninguém faz é olhar para esse número como um indicador ambiental.

E ele é. Cada santinho carrega um ciclo inteiro: a celulose que vira papel, a tinta, a impressão, a embalagem, o transporte até o comitê, a distribuição na rua e, por fim, o descarte. Para se ter uma ideia da escala, uma única folha A4 exige cerca de 10 litros de água para ser produzida, segundo a Water Footprint Network. Multiplique isso por milhares de candidatos e milhões de eleitores.

Depois de usado, ou nem isso, o papel ainda precisa ser coletado, transportado e destinado. Quando vai para a reciclagem, volta ao ciclo, e o Brasil, segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), recicla cerca de 60% do papel que consome. O problema está nos outros 40% e, principalmente, no que nem chega ao sistema de coleta: o santinho que fica na sarjeta, segue para o bueiro ou termina no aterro, onde se decompõe liberando metano, um gás de efeito estufa bem mais potente que o CO₂.

Os números que aparecem depois da votação ajudam a dimensionar. No primeiro turno das eleições municipais de 2024, a Prefeitura de São Paulo recolheu 142 toneladas de resíduos de campanha das ruas, mobilizando 3.618 agentes de limpeza e 255 caminhões, quase 150% a mais do que as 57 toneladas do primeiro turno de 2022, segundo levantamento da Folhapress. Em Santo André e São Bernardo, cidades vizinhas, foram mais de 18 e 8 toneladas, respectivamente, ainda três dias depois da votação (BandNews FM). E isso é só o que foi varrido do chão. Não inclui o que sobrou nas caixas dos comitês nem o que foi parar nas lixeiras de casa.

Vale lembrar que derramar santinhos na véspera ou no dia da eleição não é apenas desleixo: é crime eleitoral, previsto na Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), com pena de detenção de seis meses a um ano, conversível em prestação de serviços à comunidade, e multa. A boa notícia é que a própria Justiça Eleitoral começou a tratar o tema como questão ambiental, e não apenas de fiscalização. 

O TRE-SP lançou uma campanha para que as sobras de material sejam encaminhadas a cooperativas de catadores. Em Mato Grosso, a Corregedoria Regional Eleitoral instituiu neste ano a campanha “Eleições Limpas”, que parte do reconhecimento de que a propaganda eleitoral “pode provocar diferentes formas de impacto ambiental, entre elas poluição visual, sonora, atmosférica e eletrônica, além da geração de resíduos sólidos”, e prevê o registro de imagens dos locais de votação no início e no encerramento dos trabalhos. São sinais de que o assunto saiu da margem em alguns estados.

Que fique claro: não se trata de ser contra campanhas ou de limitar o acesso da população à informação. A comunicação eleitoral é parte essencial da democracia. A reflexão é sobre como essa comunicação pode ser mais eficiente e mais responsável. Talvez o papel não precise desaparecer. Mas certamente dá para reduzir excessos, planejar melhor as tiragens, escolher papel reciclado, priorizar o digital onde ele alcança e, sobretudo, garantir que o que sobrar tenha destino certo.

E aqui está o ponto que me interessa de verdade. O santinho é só o exemplo mais visível,  porque aparece de dois em dois anos, em quantidade, e no chão. Mas o raciocínio que aplicamos a ele serve para o folheto que a empresa imprime e ninguém lê, para o relatório impresso que poderia ser um PDF, para a embalagem que envolve outra embalagem, para o brinde de evento que vira lixo no dia seguinte. Sustentabilidade não é comportamento de data comemorativa nem de período eleitoral. É a pergunta que fazemos antes de produzir qualquer coisa: isso vai cumprir a sua função? Em que quantidade? E o que acontece depois?

Cuidar do impacto que causamos no meio ambiente não é tarefa de candidato, de empresa ou de governo. É de todo mundo, todos os dias, nas escolhas pequenas, repetidas e quase invisíveis. Porque, no fim, o santinho que recebemos no sinal vermelho dura poucos minutos na nossa mão. O impacto dele, não.

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CEO e fundadora da Eco.InPact, especialista em governança e ESG, com ampla experiência em consultoria voltada para planejamento estratégico, gestão de riscos e ESG em organizações públicas e privadas.

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