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Por que dizer não a um cliente pode ser a decisão mais estratégica do ano

Foto: divulgação

Toda empresa em crescimento enfrenta, mais cedo ou mais tarde, a mesma tentação: aceitar qualquer cliente que apareça, porque a receita parece sempre bem-vinda. O problema é que nem toda receita é igual, e a diferença entre um cliente que fortalece o negócio e um cliente que o desgasta raramente aparece de forma óbvia no primeiro contrato assinado.

Robert Kaplan, professor de Harvard Business School e um dos criadores do custeio baseado em atividades, documentou esse padrão há duas décadas em num estudo que continua sendo referência: em praticamente todo levantamento de rentabilidade de clientes já feito, entre 15% e 20% dos clientes geram 100% ou mais do lucro total da empresa. Em um dos casos que ele analisou, em uma seguradora, os 40% de clientes mais rentáveis geravam 130% do lucro anual. A conta só fecha em 100% porque uma fatia relevante da carteira, no meio e na ponta de baixo, consome parte desse lucro de volta.

A curva que a maioria das empresas nunca olhou

Esse formato ficou conhecido no meio acadêmico como “curva da baleia”: poucos clientes no topo sustentam o resultado, um grupo grande no meio empata, e uma minoria na base efetivamente destrói valor. A maioria das empresas nunca desenha essa curva para a própria carteira. Elas olham para faturamento total, não para lucro por cliente, e por isso tratam todo cliente como se contribuísse igualmente para o resultado.

Sem esse recorte, a empresa não sabe quem está pagando a conta de quem.

O maior cliente nem sempre é o melhor cliente

A Bain & Company registrou um caso emblemático nessa mesma linha: uma empresa de mídia B2B cruzou os dados de vendas com os dados de suporte pós-venda e descobriu algo que contrariava a intuição de qualquer time comercial. Os dois maiores clientes da carteira, em receita, davam prejuízo. Os clientes de número 10 a 20, muito menores em faturamento, estavam entre os mais rentáveis da empresa.

A resposta para esse problema foi reajustar preço para contas de baixo valor e alto suporte, renegociar as relações de alto valor e alto suporte para torná-las eficientes e cortar relações que continuavam drenando caixa mesmo depois do ajuste. O resultado direto foi um aumento de 10% no lucro total da empresa, sem vender um único cliente novo.

Por que dizer não é mais difícil do que parece

Existe um viés natural contra essa decisão. Cancelar ou recusar um cliente parece, no curto prazo, abrir mão de receita certa. Manter um cliente ruim parece, no curto prazo, mais seguro. Só que esse cálculo ignora o custo de oportunidade. Afinal, cada hora de squad, cada ciclo de suporte e cada prioridade de roadmap gasta com um cliente de baixo encaixe é uma hora que deixou de ir para um cliente que teria gerado mais valor, com menos atrito.

A Bain também mostrou esse padrão em carteiras de bancos corporativos: cerca de 20% dos clientes concentram praticamente todo o lucro econômico, enquanto cerca de 30% ficam abaixo da linha de rentabilidade, consumindo capital, tempo e risco sem retorno proporcional.

O que isso significa na prática comercial

Um cliente que busca apenas mão de obra técnica barata, sem valorizar governança ou continuidade, tende a consumir energia do time muito acima do que paga. Já um cliente que entende o valor de uma operação bem estruturada tende a crescer junto com o fornecedor.

Existe uma diferença entre faturar mais e lucrar mais, e ela nasce exatamente nas contas que ninguém teve coragem de recusar. No balanço do ano, o contrato mais valioso nem sempre é o que foi assinado, mas o que ficou de fora. 

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Fundador e CEO da SysMiddle, especialista em integrações e APIs e criador do Método IPRS.

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