Por Guilherme Reitz, fundador e CEO da Yungas.
Por muito tempo, falar em franquias significava olhar para os Estados Unidos como principal referência. O país ainda opera em escala muito superior, mas o Brasil vive um momento diferente, cresce em ritmo acelerado, amplia sua capilaridade e precisa profissionalizar a gestão de redes cada vez maiores e mais distribuídas.
Em 2025, o franchising brasileiro ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 300 bilhões em faturamento, chegando a R$ 301,7 bilhões, alta de 10,5% sobre o ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF). O setor encerrou o ano com 202.444 operações e 1,76 milhão de empregos diretos. No segundo trimestre de 2026, manteve o ritmo, com faturamento de R$ 76,3 bilhões, avanço de 9,3%.
Nos Estados Unidos, mercado mais maduro, a expansão acontece de forma mais moderada. A International Franchise Association projeta para 2026 cerca de 845 mil estabelecimentos franqueados, com crescimento de aproximadamente 1,5% em unidades. A diferença não está no tamanho, mas no estágio de desenvolvimento: enquanto muitas redes americanas trabalham para otimizar estruturas consolidadas, empresas brasileiras ainda constroem e profissionalizam suas estruturas enquanto crescem.
É justamente aí que surge um dos principais desafios do franchising brasileiro, como coordenar o crescimento sem aumentar a estrutura administrativa na mesma proporção? Uma rede que passa de 100 para 1.000 unidades precisa encontrar novas formas de acompanhar comunicação, treinamentos, indicadores e processos sem multiplicar suas equipes de gestão.
Quem acompanha de perto a evolução das redes brasileiras percebe que esse desafio também passa pela qualidade dos dados disponíveis para a tomada de decisão. Dados da Yungas, plataforma especializada na gestão de grandes redes de franquias e operações próprias, ajudam a dimensionar essa transformação, em um ano, as unidades conectadas à plataforma passaram de 17.976 para 32,6 mil, alta de 81,35%, enquanto os acessos cresceram 54,24%.
Mais do que a expansão da base, alguns indicadores ajudam a entender a relação entre gestão e desempenho. Entre as operações acompanhadas, unidades com franqueados acima de 70% de engajamento registram, em média, 30% mais faturamento. O dado não estabelece causalidade, mas reforça uma associação, à medida que as redes crescem, acompanhar indicadores, capacitar equipes e manter os franqueados engajados deixa de ser uma questão operacional e passa a fazer parte da estratégia.
A capacitação acompanha esse movimento. Mais de 30 mil usuários já realizaram treinamentos na plataforma, mostrando que a profissionalização precisa avançar junto com a expansão. O desafio deixou de ser apenas abrir novas lojas, é fazer centenas ou milhares de operações crescerem de forma coordenada.
A nova era da gestão de redes em expansão
A tecnologia começa a cumprir um papel mais sofisticado nesse processo, deixando de apenas organizar informações para ajudar a interpretá-las. Com inteligência artificial, dados de comunicação, treinamentos, checklists, indicadores e processos podem ser cruzados para identificar padrões, gargalos e prioridades. Para redes que crescem dentro e fora do país, essa capacidade ajuda a preservar processos e conhecimento sem exigir uma expansão equivalente das equipes de gestão.
Esse movimento ganha ainda mais relevância com a internacionalização. Segundo a ABF, marcas brasileiras chegaram a 4.194 operações em 104 países em 2025, alta de 37% em relação ao ano anterior. À medida que as redes atravessam fronteiras, manter processos, indicadores e padrões de operação torna-se também um fator de competitividade.
Os Estados Unidos continuam sendo referência em escala e maturidade, mas o Brasil começa a construir uma identidade própria, combinando crescimento acelerado, interiorização, internacionalização e digitalização da gestão. Se os americanos mostram como otimizar estruturas consolidadas, o Brasil enfrenta o desafio de construir essas estruturas sem frear a expansão.
O próximo passo, portanto, não será simplesmente abrir mais unidades, mas coordená-las com eficiência e consistência. É nessa passagem do crescimento para a escala que tecnologia e inteligência artificial deixam de ser diferenciais e passam a fazer parte da infraestrutura do franchising.