Setembro chegou ao fim e, durante o mês todo, uma avalanche de conversas sobre saúde mental. Falamos sobre estresse, ansiedade, burnout, equilíbrio, autocuidado e a importância de olhar para nós mesmos antes que o corpo ou a mente cobrem a conta. É uma conversa necessária, mas talvez exista uma pergunta ainda mais incômoda: será que estamos tentando cuidar da nossa saúde mental sem questionar o jeito como estamos vivendo?
Os números mostram que existe um problema que não dá para tratar como modismo. Uma pesquisa da Balderton com fundadores e CEOs mostrou que 91% perceberam alguma deterioração no próprio bem-estar desde que começaram a empreender, enquanto 69% disseram que o estresse afetou moderada ou significativamente seu desempenho profissional. A Organização Mundial da Saúde estima que, globalmente, depressão e ansiedade estejam associadas à perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com um custo próximo de US$ 1 trilhão em produtividade. São números grandes demais para serem ignorados, mas eles também levantam uma questão: se sabemos tanto sobre o problema e nunca tivemos tanta informação sobre bem-estar, por que continuamos tendo tanta dificuldade para viver bem?
Talvez porque tenhamos transformado até o cuidado em uma questão de performance. Temos relógios que monitoram o sono, aplicativos que contam passos, planilhas de treinamento, metas de leitura, meditação guiada, programas corporativos de bem-estar e uma infinidade de especialistas ensinando como organizar melhor a nossa rotina. Tudo isso pode ajudar. O problema aparece quando a lógica que usamos para administrar uma empresa passa a comandar também a nossa vida. Dormir oito horas vira meta, independente da qualidade. Treinar cinco vezes por semana vira objetivo para melhorar a performance. Ler dez livros vira meta de desenvolvimento. Meditar vira obrigação. Até descansar pode ganhar uma justificativa produtiva: descansar para voltar melhor ao trabalho.
A gente se acostumou tanto a estabelecer objetivos que começou a perguntar qual é o ROI de quase tudo o que faz. Um curso precisa melhorar a carreira. Uma viagem precisa gerar conteúdo. Um evento precisa ampliar o networking profissional. Uma conversa deve gerar oportunidades e abrir portas. Um esporte precisa melhorar a performance. Até os relacionamentos, em alguns ambientes, são avaliados pelo potencial de conexão profissional. Aos poucos, a vida vai ficando extremamente eficiente e, ao mesmo tempo, estranhamente pobre em coisas que não têm alguma utilidade aparente.
Talvez seja justamente aí que esteja uma parte da resposta.
Precisamos voltar a fazer coisas que não precisam nos levar a lugar algum. Tomar um café com alguém só porque gostamos da companhia e das risadas, e não porque aquela pessoa pode abrir uma porta. Mandar mensagem para um amigo que ficou distante. Criar um jantar mensal com pessoas que gostamos. Conhecer melhor o nome das pessoas que fazem parte da nossa rotina. Fazer um esporte sem olhar o relógio ou a obrigação da planilha. Aprender alguma coisa em que somos ruins (e aceitar que podemos ser assim). Cozinhar, desenhar, tocar um instrumento, plantar alguma coisa, fazer uma trilha, caminhar sem destino. Viajar sem transformar cada momento em conteúdo. Sentar diante de uma paisagem e simplesmente ficar ali.
Parece pouco. Mas talvez seja justamente esse o problema. Estamos tão acostumados a buscar grandes resultados que esquecemos do valor das pequenas experiências que dão textura à vida.
Penso nisso quando lembro de como comecei a praticar kite. Foi uma conversa casual com um colega, por volta de 2017 ou 2018. Eu não estava procurando uma nova ferramenta de desenvolvimento pessoal, não havia um objetivo profissional por trás e certamente não fazia parte de algum plano estratégico de longo prazo. Achei interessante, fiz algumas aulas e gostei. Continuei. Até hoje é uma atividade que ocupa um espaço importante na minha vida sem precisar justificar sua existência. Não aumenta meu faturamento, não melhora meu currículo e não gera um certificado. Mas me faz bem. E talvez isso seja justificativa suficiente.
Existe uma diferença importante entre fazer alguma coisa para viver melhor e fazer alguma coisa porque ela precisa nos tornar melhores. A primeira ideia abre espaço para o prazer, para a curiosidade e para a descoberta. A segunda transforma cada experiência em obrigação. E quando tudo vira obrigação, até aquilo que deveria nos recuperar começa a parecer trabalho.
Isso vale especialmente para quem vive de metas. Executivos e empreendedores são treinados para encontrar problemas, estabelecer objetivos, acompanhar indicadores e buscar evolução contínua. Essa capacidade é fundamental para construir empresas. Mas talvez exista um limite para essa lógica. Uma vida não é uma empresa. Não precisamos medir tudo, otimizar tudo ou encontrar retorno para tudo.
Talvez algumas das coisas mais importantes que fazemos sejam justamente aquelas que não aparecem no currículo, não entram no planejamento anual e não podem ser traduzidas em um indicador. Uma conversa longa. Um amigo antigo. Um esporte praticado por prazer. Uma tarde sem agenda. Um lugar novo. Um hobby em que você é péssimo. Uma árvore plantada que você talvez nem veja crescer. Um pôr do sol que ninguém precisa saber que você viu.
E talvez essa seja uma das reflexões que Setembro Amarelo deveria provocar também. Não apenas perguntar o que estamos fazendo para cuidar da nossa mente, mas olhar para a vida que estamos construindo ao redor dela. Porque não adianta transformar o bem-estar em mais uma obrigação, mais uma meta, mais um item na lista de tarefas.
Talvez a gente não precise de mais uma coisa para fazer. Talvez precise de algumas coisas para fazer sem precisar que elas sirvam para alguma coisa.
Afinal, podemos construir uma vida extremamente produtiva e ainda assim esquecer de viver.