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Ironman e a obsessão por provar que somos capazes

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Existe uma ideia bastante difundida no esporte, e também no mundo corporativo, de que superar limites é sempre uma virtude. Insistir quando fica difícil, continuar quando o corpo pede descanso, aceitar desafios que parecem impossíveis. Admiramos quem não desiste, quem encontra forças onde parecia não haver mais nenhuma, quem cruza a linha de chegada apesar das adversidades. Mas será que insistir é sempre a melhor decisão? Em que momento a determinação deixa de ser uma qualidade e passa a ser um risco?

O Ironman é um dos melhores exemplos para refletir sobre isso. Uma prova que reúne 3,8 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e uma maratona exige anos de preparação. Não se trata apenas de desenvolver resistência física. É preciso construir condicionamento, técnica, experiência e, principalmente, aprender a conhecer o próprio corpo. Disciplina, foco e estratégia são fundamentais, mas existe uma lição talvez ainda mais importante: reconhecer os sinais de cansaço e saber diferenciar o desconforto natural de um esforço prolongado da exaustão que exige uma mudança de atitude.

Essa percepção fica especialmente evidente em Kona, no Havaí, palco do Campeonato Mundial de Ironman. Ali estão alguns dos melhores triatletas do planeta. São atletas que passaram anos construindo suas carreiras, acumulando experiência em competições e conquistando o direito de disputar o mundial. Ainda assim, a cada ano, a prova mostra que nem mesmo a elite está imune aos limites do corpo.

A norueguesa Solveig Løvseth, então campeã mundial, liderava a prova feminina e estava a menos de um quilômetro da chegada quando começou a perder as forças. Caiu algumas vezes, tentou retomar a corrida e precisou caminhar até cruzar a linha de chegada, na oitava colocação. A americana Taylor Knibb, que acabou conquistando o título, também enfrentou dificuldades: vomitou durante a maratona e precisou caminhar em um posto de hidratação antes de retomar o ritmo. No masculino, o dinamarquês Magnus Ditlev perdeu a liderança na parte final da corrida, enquanto o francês Vincent Luis aproveitou o momento para assumir a ponta e vencer.

Não há falta de preparo nesses exemplos. Estamos falando de atletas de altíssimo nível, que conhecem profundamente o esporte e sabem o que significa competir em Kona. Mas uma prova de endurance também é um exercício de adaptação. O planejamento feito durante meses de treinamento precisa ser ajustado diante do calor, do desgaste acumulado e das condições daquele dia. Saber reduzir o ritmo, caminhar, hidratar-se ou até abandonar uma prova pode ser tão importante quanto ter disciplina para chegar preparado à largada. Performance não é executar um plano a qualquer custo, mas tomar boas decisões quando o plano deixa de funcionar.

Outro exemplo recente vem do tênis. João Fonseca, uma das maiores promessas do esporte brasileiro, decidiu encerrar sua temporada de 2026 antes do previsto para priorizar a recuperação física e mental. Depois de uma sequência de lesões, o jovem atleta optou por não disputar os torneios restantes do calendário, mesmo tendo compromissos importantes pela frente, incluindo a defesa do título na Basileia. Em sua manifestação pública, explicou que ainda não estava nas condições ideais para competir no nível que gostaria e que não precisava apressar o retorno.

A decisão chama atenção porque João está no centro de uma enorme expectativa. Torcida, patrocinadores e mercado acompanham cada resultado, cada avanço no ranking e cada oportunidade de consolidar sua posição no circuito. Existe uma pressão natural para aproveitar o momento, acelerar a evolução e transformar potencial em conquistas. Mas talvez a escolha de interromper a temporada seja justamente uma demonstração de maturidade: entender que uma carreira não se constrói em uma sequência ininterrupta de resultados e que preservar as condições para continuar competindo também faz parte do processo.

Esses episódios ajudam a olhar de outra forma para o que aconteceu no Ironman 70.3 de Encarnación, no Paraguai, em outubro. A prova foi marcada pelas dificuldades enfrentadas por participantes durante a natação no rio Paraná, que apresentava correnteza forte após chuvas intensas. A organização reduziu o percurso de natação e reforçou a estrutura de segurança, mas 64 dos 386 participantes não conseguiram concluir essa etapa dentro do tempo limite.

O episódio levantou questionamentos sobre a preparação de alguns participantes e sobre a decisão de encarar uma prova dessa dimensão com pouco tempo de treinamento. Relatos divulgados após a competição mencionaram pessoas que teriam decidido participar poucos dias antes ou que tinham uma experiência bastante limitada na natação. E aqui está uma reflexão que vai além do resultado: qual é o valor de chegar à linha de largada sem ter percorrido o processo necessário para estar ali? Em esportes como o Ironman, a preparação não é um detalhe que antecede a conquista. Ela é parte essencial da própria conquista.

A cultura da performance, porém, costuma valorizar mais a história de quem desafia todas as probabilidades do que a de quem respeita o processo. Nas redes sociais, a narrativa de superar qualquer obstáculo rende admiração. O trabalho silencioso, a evolução gradual e a decisão de reconhecer que ainda não estamos prontos raramente recebem o mesmo destaque. Aos poucos, começamos a confundir coragem com imprudência, persistência com teimosia e capacidade com a disposição de suportar qualquer consequência.

No mundo corporativo, essa lógica também está presente. Admiramos quem trabalha até tarde, aceita mais um projeto mesmo estando sobrecarregado, viaja sem parar e continua entregando apesar do cansaço. Chamamos isso de comprometimento, resiliência ou alta performance. Mas quantas dessas pessoas estão realmente performando bem e quantas apenas aprenderam a ignorar os próprios sinais de exaustão? Quantos profissionais continuam acelerando porque têm clareza de seus objetivos e quantos fazem isso porque sentem que precisam provar alguma coisa?

Talvez o esporte de endurance nos ensine que conhecer os próprios limites não significa ser menos ambicioso. Pelo contrário, exige experiência e maturidade. É preciso reconhecer quando o desconforto faz parte do desafio e quando o corpo está sinalizando que algo não vai bem. É preciso entender que reduzir o ritmo não significa abandonar o objetivo e que, em determinadas situações, parar é a decisão que permite continuar no futuro.

No esporte e nos negócios, existe uma diferença importante entre querer realizar algo que exige muito de nós e precisar provar que somos capazes de qualquer coisa. A primeira atitude nos leva a construir, aprender e evoluir. A segunda pode nos fazer ignorar justamente aquilo que deveria orientar nossas decisões: nossa capacidade real, nossas condições e o preço que estamos dispostos a pagar.

Talvez a pergunta antes do próximo grande desafio não devesse ser apenas se temos coragem para enfrentá-lo ou disciplina para chegar até o fim. Deveria ser também se estamos preparados para reconhecer o que acontece durante o caminho e mudar de decisão quando necessário. Porque performance não é apenas avançar, acelerar ou resistir. É saber interpretar os sinais, administrar os recursos e entender que o resultado final nunca deveria valer mais do que a própria jornada.

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Empreendedor, advisor, investidor, palestrante, entusiasta de atividades outdoor e apaixonado pelo mar desde sempre.

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