Em 26 anos de carreira no jornalismo, com forte atuação em assessoria de imprensa, aprendi a tratar o release como uma etapa do trabalho. Antes de escrevê-lo, é preciso conversar com a empresa, conferir os fatos e definir o recorte, pois é nesse percurso que uma informação interna pode ganhar interesse para quem está fora da organização.
A abertura de uma unidade ilustra a diferença entre anunciar uma novidade e preparar uma pauta. O endereço e a data informam o público sobre a operação; para uma editoria de economia, talvez seja necessário explicar o investimento e a razão da escolha daquela região, enquanto uma reportagem local pode buscar os efeitos dessa operação para a cidade. Esses caminhos surgem da apuração. Alterar o título de um mesmo texto para enviá-lo a veículos diferentes não acrescenta as informações que cada cobertura exige.
O State of Journalism 2026, do Muck Rack, reservou espaço para a contribuição das assessorias. Entre os jornalistas analisados, 86% disseram que ao menos parte das matérias que publicam começa com uma sugestão de pauta feita por profissionais de relações públicas. No mesmo levantamento, 47% afirmaram receber raramente ou nunca propostas relacionadas aos assuntos que cobrem. A pesquisa considerou 897 respostas válidas, principalmente de jornalistas dos Estados Unidos, com participantes de outros países; seus resultados descrevem esse grupo e não devem ser apresentados como retrato das redações brasileiras.
Há abertura para sugestões capazes de contribuir para uma reportagem, ao mesmo tempo em que muitas mensagens chegam sem relação suficiente com o trabalho de quem as recebe. Selecionar o destinatário, conhecer sua cobertura e oferecer informações que possam ser investigadas são tarefas editoriais, e não apenas etapas de um disparo.
Esse cuidado envolve, às vezes, rever o calendário de divulgação de uma empresa. Uma novidade pode ser importante para seus clientes, mas ainda não há elementos para uma reportagem: falta um dado confirmado, o porta-voz não estará disponível ou o contexto precisa ser apurado. Ao identificar essas lacunas, a assessoria pode trabalhar melhor a informação e escolher o momento e o canal adequados para comunicá-la.
Quando a pauta chega à imprensa, começa outra etapa. O jornalista pode pedir documentos, ouvir fontes adicionais e seguir uma linha de investigação que a empresa não havia previsto, pois a visibilidade conquistada em espaços editoriais, conhecida como earned media, depende da autonomia do veículo. Cabe à assessoria facilitar o acesso aos fatos e manter a fonte disponível, inclusive para esclarecer pontos difíceis.
O relacionamento profissional também se desenvolve fora dos anúncios. Conhecer os assuntos acompanhados por uma editoria, responder dentro do prazo e explicar um tema do setor quando a redação procura uma fonte permite uma relação útil para os dois lados. Nem toda conversa resulta em publicação; ainda assim, o jornalista pode passar a conhecer alguém preparado para ajudá-lo em outra pauta, enquanto a empresa compreende melhor quais assuntos despertam interesse público.
Por isso, ao avaliar uma presença na imprensa, olho para o que foi efetivamente publicado. Uma matéria que explica um assunto com dados corretos pode contribuir para o conhecimento sobre uma empresa, mesmo quando ocupa um espaço menor do que o esperado. O número de publicações registra a circulação da informação; a leitura do conteúdo mostra qual conversa aquela cobertura ajudou a construir. Esse olhar começa antes do release e se mantém depois da notícia publicada.