Todo material de vendas hoje tem uma lista parecida, com piscina, academia, espaço pet, coworking, spa. O problema é que, na maioria dos projetos, ela foi decidida depois que a planta já estava pronta. Wellness virou item de checklist, quando deveria ser a razão pela qual a planta existe do jeito que existe.
Essa distinção parece sutil, mas está movimentando um dos mercados que mais cresce dentro do setor imobiliário global.
Um mercado que cresce quatro vezes mais rápido que a construção tradicional
Segundo o relatório “Build Well to Live Well” do Global Wellness Institute (GWI), o segmento de wellness real estate somou US$ 673 bilhões em 2025, alta de 15,2% sobre os US$ 584 bilhões de 2024, uma taxa de crescimento anual composta de 15,8%, com projeção de ultrapassar US$ 1,1 trilhão até 2029.
Entre 2019 e 2024, o ritmo médio de expansão do setor foi de 19,5% ao ano, quase quatro vezes mais rápido que os 5,5% registrados pela construção civil convencional no mesmo período, segundo dados compilados pela ADEMI-RJ.
O Brasil não está de fora dessa curva. De acordo com a mesma pesquisa, o país registra hoje o que o mercado vem chamando de “sobrepreço de bem-estar”, e imóveis com esse perfil já valem entre 10% e 25% mais do que lançamentos tradicionais em regiões de alta demanda. Somado a isso, temos a América Latina que fechou 2025 como a região de crescimento mais agressivo do mundo nesse segmento, com expansão anual de 24%.
Santa Catarina está no centro desse movimento pelo motivo de que o estado concentra quatro das cinco cidades mais valorizadas do país, segundo o Índice FipeZap, exatamente o tipo de praça onde a disposição a pagar por qualidade de vida, e não só por metro quadrado, mais aparece.
Por que a maioria dos projetos erra o timing dessa decisão
O erro mais comum que eu observo é de sequência. A maioria dos empreendimentos decide o wellness depois de fechar a planta, e assim escolhe quais amenidades caber no espaço que sobrou, em vez de desenhar o espaço em função de como as pessoas realmente vão viver ali.
O resultado é previsível. São academias subutilizadas, espaços de convivência que ninguém ocupa, itens de lazer que aparecem bonitos no material de vendas e ficam vazios dois anos depois de entregues. Isso acontece porque amenidade pensada depois da planta não resolve um problema de quem vive ali, e só preenche um metro quadrado que sobrou.
Wellness como arquitetura é outra lógica inteira. Significa decidir, antes de desenhar a planta, que tipo de encontro, de movimento e de convivência aquele edifício deveria gerar e só depois resolver a distribuição dos espaços em função dessa decisão.
A diferença entre as duas abordagens aparece dois ou três anos depois do lançamento, quando um prédio pensado como arquitetura continua vivo e um prédio pensado como lista de amenidades já esvaziou seus espaços comuns.
O caso que melhor ilustra essa diferença
O exemplo mais citado internacionalmente para esse tipo de projeto é o Kampung Admiralty, em Singapura, do escritório WOHA, vencedor do prêmio de Edifício do Ano no World Architecture Festival de 2018 e do Global Award for Excellence do Urban Land Institute em 2021.
O edifício foi desenhado como um “club sandwich” vertical. com uma praça pública e aberta no térreo, um centro médico no meio, e apartamentos para moradores com 55 anos ou mais no topo, com um parque comunitário na cobertura. A intenção não era simplesmente reunir serviços num mesmo endereço, mas desenhar, camada por camada, os encontros entre gerações que a arquitetura deveria provocar.
Desde a inauguração, mais de 190 atividades comunitárias já foram realizadas na praça central, e o projeto recrutou mais de 200 voluntários seniores, muitos dos quais ajudam a cozinhar refeições para idosos com demência, um resultado social que nenhuma lista de amenidades entrega sozinha.
O relevante aqui não é replicar Singapura em Santa Catarina, uma vez que os contextos são completamente diferentes. É o raciocínio por trás do projeto, a forma como cada função do edifício foi posicionada estrategicamente para gerar convívio entre gerações, não apenas para ocupar espaço.
O que isso significa para quem está desenhando um projeto hoje
Foi esse tipo de raciocínio que guiou boa parte das decisões do Terrá, aqui em Florianópolis. Em vez de tratar bem-estar como um pacote de itens a mais, a intenção desde o início foi pensar em como diferentes momentos de vida, de quem trabalha de casa, de quem tem filhos pequenos, de quem já não precisa de tanto espaço privado, mas ainda quer convívio, poderiam coexistir num mesmo edifício sem que um anulasse o outro.
Isso muda a régua de avaliação de qualquer empreendimento que se posicione como wellness. A pergunta certa não é “quantos itens de lazer esse prédio tem”. É “esses espaços foram pensados para gerar algum tipo de vida em comum, ou só para caber na planta que sobrou depois de decidido tudo o mais”. A resposta para essa pergunta é o que separa um projeto que ainda vai estar vivo daqui a dez anos de um que só parecia vivo no dia do lançamento.
A lista de piscina, academia e espaço pet vai continuar aparecendo em todo material de vendas. A diferença é que, num projeto pensado como arquitetura, cada um desses espaços já nasceu sabendo por que existe e é isso que decide se ele segue ocupado depois que o marketing do lançamento acaba.