A concorrência internacional, os sistemas legados e a pressão pela adoção de inteligência artificial estão redefinindo as decisões tecnológicas na indústria da moda.
Em agosto de 2026, o Brasil recebeu 26,5 milhões de remessas internacionais de pequeno valor, um crescimento de 74% em relação a 2025. Essas compras movimentaram US$ 526 milhões, um aumento de 79%, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção. No mês anterior, a produção brasileira de confecção havia recuado 8,2% em comparação anual.
Esses números mostram a pressão sobre a indústria da moda no país: enquanto as compras internacionais avançam, as empresas brasileiras precisam preservar as margens, acompanhar as mudanças no consumo e coordenar um número crescente de canais.
Em uma conversa recente, pedi a Adriano de Brito Machado, Coordenador de Infraestrutura e Service Desk do Grupo Malwee, que explicasse como esse cenário chega à área de tecnologia. Adriano também passou pela TI de outra grande empresa do setor e acompanha o mercado do lado de quem precisa manter pedidos, estoques e canais funcionando em conjunto.
Na avaliação dele, o custo de produção no Brasil dificulta uma disputa baseada apenas no preço com as plataformas asiáticas. A capacidade de entregar o produto certo, pelo canal adequado e com informações confiáveis ganha ainda mais importância nesse contexto.
A venda perdida entre o sistema e a prateleira
Essa pressão também vem do comportamento do consumidor. Segundo Adriano, a insegurança econômica reduz o valor e a frequência das compras. No segmento infantil, há ainda outro componente: as crianças crescem rapidamente, as roupas passam de um irmão para o outro e o número de nascimentos continua a diminuir.
Diante dessa mudança, Adriano identifica nos básicos para adultos, com maior durabilidade e giro constante, uma oportunidade de sustentar o faturamento.
A operação comercial, porém, tornou-se mais difícil de coordenar. Hoje, a Malwee vende por meio de representantes e lojas multimarcas, unidades exclusivas, franquias, lojas próprias, comércio eletrônico e marketplaces. Cada canal possui formas distintas de registrar os pedidos, faturar as vendas e atualizar os estoques.
É nesse ponto que surgem os problemas: faltam determinados tamanhos ou cores de um produto, ou o sistema informa que a peça está disponível, mas a prateleira mostra o contrário.
Na prática, essas divergências resultam em pedidos cancelados, erros de faturamento e dificuldades nas vendas integradas entre as lojas físicas e os canais digitais. Também escondem oportunidades de receita que dificilmente aparecerão nos relatórios.
A arquitetura precisa aliviar o ERP legado
Na visão de Adriano, um ERP antigo dificilmente consegue, por si só, atender à velocidade exigida por tantos canais. Uma camada externa de APIs e mensageria pode organizar a troca de informações entre as aplicações, além de permitir que os canais digitais evoluam sem concentrar todas as solicitações no sistema central.
Outro desafio é a disponibilidade de profissionais especializados em tecnologias legadas de integração e programação de ERP. Quando cada nova conexão depende desses conhecimentos, a demanda aumenta a fila, o prazo e o custo da área de tecnologia.
No olhar de Adriano, uma plataforma de integração precisa ser fácil de usar, reduzir a necessidade de programação manual e oferecer suporte que participe da resolução de incidentes. São esses critérios que influenciam a capacidade de estabelecer e manter novas conexões.
A inteligência artificial aumenta a responsabilidade da TI
A discussão sobre integração está entrando em uma nova fase com o Model Context Protocol (MCP). Esse padrão aberto permite que os assistentes e os agentes de inteligência artificial acessem os sistemas e os dados de uma empresa de forma organizada.
Lançado no final de 2024, o MCP já conta com suporte a ferramentas como o ChatGPT, o Gemini e o Microsoft Copilot. Para Adriano, essa compatibilidade passa a fazer parte da avaliação técnica dos fornecedores de integração.
Mais do que isso, ele identifica valor no uso da IA para gerar documentação, revisar a segurança do código e reduzir tarefas manuais. Esse investimento, porém, precisa ter um objetivo definido, custar menos do que o processo que pretende automatizar e estabelecer quem responde por uma falha ou por um vazamento de dados.
A preocupação encontra respaldo em uma projeção do Gartner: mais de 40% dos projetos de inteligência artificial agêntica serão cancelados até o final de 2027 devido aos custos elevados, ao valor de negócio pouco claro e aos controles de risco insuficientes.
A confiança precisa estar nos sistemas
Durante a nossa conversa, Adriano fez uma distinção importante entre as marcas compradas pelo desejo e as sustentadas pela confiança. No caso da Malwee, essa confiança está associada à qualidade da matéria-prima, ao caimento e à durabilidade das peças.
A verdade é que a tecnologia participa dessa relação mesmo sem aparecer para quem compra. Um estoque correto evita promessas que a loja não pode cumprir. Uma integração estável mantém os canais atualizados. Uma IA com controles bem definidos reduz o risco de decisões baseadas em informações incompletas.
Como especialista em tecnologia, encaro esse desafio sob a perspectiva da arquitetura. Sabemos que as empresas precisam conectar os canais, preservar as responsabilidades de cada sistema e disponibilizar dados confiáveis para as aplicações atuais e futuras.
Por isso, antes de investir, a gestão precisa avaliar se os sistemas conseguem fornecer dados à IA, se a automação gera retorno financeiro, quem responde por eventuais falhas e como o fornecedor atua diante de um incidente.
Na indústria da moda, essas respostas influenciam a capacidade de oferecer o produto certo, pelo canal adequado e, o mais importante, com informações em que o consumidor possa confiar de olhos fechados.