Por Artur de Castro, Managing Partner na Evermonte Executive & Board Search.
A dificuldade crescente para encontrar profissionais plenamente preparados está levando as empresas a revisar uma premissa histórica da gestão de pessoas. Em vez de recorrer prioritariamente ao mercado, ganha força a decisão de desenvolver quem já integra a organização. A pesquisa People Trends 2026, do Evermonte Institute, evidencia essa inflexão ao expor uma lacuna consistente entre as competências disponíveis e aquelas exigidas por um ambiente de negócios mais complexo.
Os dados ajudam a dimensionar o desafio. Para 66,7% dos líderes de RH, as equipes atendem apenas parcialmente às necessidades das empresas, enquanto 21,3% afirmam que as competências requeridas não estão presentes. O ponto central, portanto, não é mais a escassez de pessoas, mas o desalinhamento entre as capacidades que já existem e demandas estratégicas.
Esse quadro ganha relevância quando observado sob a ótica do planejamento organizacional. Cerca de metade das companhias projeta manutenção do quadro, sinalizando maior disciplina após ciclos de ajuste, enquanto quase 20% ainda preveem expansão. Nos dois cenários, o desenvolvimento interno passa a funcionar como uma alavanca de sustentação do negócio: amplia a produtividade sem pressionar custos e reduz o risco de crescimento apoiado em competências que ainda precisam ser aprimoradas.
A própria dinâmica do mercado reforça essa reorientação. A disputa por profissionais qualificados se intensificou, os ciclos de adaptação tornaram-se mais longos e o alinhamento cultural nem sempre ocorre na velocidade necessária. E há também uma dimensão de gestão de risco nessa escolha. Mapear lacunas, priorizar competências críticas e estruturar sucessões fortalece a operação e a capacidade de antecipação. Em vez de reagir a déficits já instalados, constrói-se um fluxo contínuo de preparação.
Na prática, o que se observa é uma recalibragem estratégica: depender exclusivamente do mercado tornou-se uma decisão mais vulnerável. Em um plano mais amplo, essa agenda revela uma leitura mais sofisticada sobre competitividade, uma vez que o desenvolvimento de competências internamente deixa de ser uma iniciativa tática e passa a configurar-se como parte imprescindível da infraestrutura organizacional – base para eficiência, adaptação e crescimento sustentável.