Por Paulo Sponchiado, CEO da Gennera.
Há um avanço significativo das fusões e aquisições na educação privada brasileira e isso costuma ser associado ao interesse de grandes grupos econômicos ou fundos de investimento em um setor resiliente e de demanda relativamente previsível. Embora essa explicação esteja parcialmente correta, ela não é suficiente para compreender o que está acontecendo no mercado educacional. A consolidação que observamos é consequência de uma transformação na forma como as instituições de ensino precisam operar para permanecer competitivas, como o avanço tecnológico, a capacidade de ensino para capacitação e um contexto social que demanda formação para habilidades profissionais e posicionamento crítico cidadão.
Os sinais dessa consolidação são visíveis em diferentes segmentos da educação privada. No ensino superior, grupos como Cogna, YDUQS, Ânima e Ser Educacional protagonizaram, ao longo dos últimos anos, um ciclo de aquisições que redesenhou o mercado. Na educação básica, redes como Eleva e Bahema vêm ampliando sua presença por meio da incorporação de escolas com marcas consolidadas e forte inserção regional. O que muda agora é a intensidade desse movimento e o número de instituições que passam a enxergar a consolidação não apenas como uma oportunidade de crescimento, mas como uma resposta aos desafios estruturais do setor.
Uma característica nesse debate é que a maior parte das escolas privadas brasileiras não nascem como uma grande organização empresarial. Pelo contrário, assim como acontece com padarias, clínicas ou escritórios de serviços, a maioria das instituições foi construída por pequenos empreendedores que identificaram uma oportunidade, desenvolveram uma proposta educacional relevante e conquistaram espaço em suas comunidades. São organizações que crescem a partir da capacidade de seus fundadores, do reconhecimento de sua marca e da confiança construída com famílias e alunos ao longo de anos.
Esse modelo foi capaz de sustentar o crescimento do setor durante décadas. O problema é que o ambiente competitivo mudou. Hoje, uma instituição de ensino precisa lidar simultaneamente com exigências regulatórias mais complexas, aumento dos custos operacionais, necessidade permanente de atualização pedagógica, investimentos em tecnologia, demandas crescentes das famílias e uma concorrência muito mais estruturada.
A tecnologia talvez seja o exemplo mais evidente dessa mudança. Ferramentas de gestão acadêmica, plataformas digitais, recursos de personalização da aprendizagem, inteligência de dados e modelos híbridos de ensino passaram a ocupar posição estratégica nas instituições. No entanto, desenvolver ou mesmo implementar essas soluções exige recursos financeiros, equipes especializadas e escala operacional. Grandes redes conseguem distribuir esses investimentos entre dezenas de unidades. Para uma escola independente, o custo relativo costuma ser significativamente maior.
É justamente nesse contexto que as operações de M&A ganham relevância. O Brasil possui um dos mercados educacionais mais fragmentados do mundo. Somente na educação básica privada, são mais de 40 mil escolas, a maior parte delas de pequeno e médio porte. Em mercados com esse perfil, a consolidação tende a ocorrer de forma natural à medida que aumentam as exigências de gestão e investimento.
Outro fator importante é a sucessão. Grande parte das escolas privadas brasileiras continua sendo administrada por famílias fundadoras. À medida que essas organizações amadurecem, torna-se inevitável discutir quem conduzirá o negócio nas próximas décadas. Nem sempre existem sucessores interessados ou preparados para assumir essa responsabilidade. Em diversas situações, a venda para uma rede maior ou a associação com investidores representa uma forma de preservar o legado construído ao longo de anos, ao mesmo tempo em que garante condições para a continuidade da instituição.
Isso não significa, porém, que a consolidação esteja livre de riscos. Diferentemente de outros setores, o principal ativo de uma escola não está apenas em seus demonstrativos financeiros. Está em sua identidade pedagógica, em sua cultura institucional e na confiança depositada por alunos, famílias e professores. Operações mal conduzidas podem comprometer os elementos que justificaram a aquisição. Por essa razão, os processos mais bem-sucedidos costumam ser aqueles que conseguem combinar eficiência empresarial com preservação da essência educacional da instituição.
A tendência é que esse movimento continue avançando nos próximos anos. O ensino superior já passou por um ciclo intenso de consolidação, mas a educação básica ainda apresenta enorme potencial para novas operações. Segmentos como ensino bilíngue, educação premium e formação técnica também devem atrair atenção crescente de investidores e grupos estratégicos. Ao mesmo tempo, fatores como governança, capacidade tecnológica, força de marca e qualidade da gestão tendem a influenciar cada vez mais o valor das instituições.