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Crescer organicamente ou via aquisições? O dilema das empresas em expansão

Foto: divulgação

Por Luisa Souto, associate partner da LKC Capital

Toda empresa em expansão chega, cedo ou tarde, à mesma discussão: é melhor crescer organicamente ou comprar outra empresa? A pergunta parece fazer sentido. Mas, muitas vezes ela é feita cedo demais. Antes de decidir como crescer, a empresa deveria responder a uma pergunta anterior: essa é a melhor alocação possível de capital?

Crescimento não cria valor automaticamente. Toda iniciativa de expansão – seja contratar uma equipe, desenvolver um novo produto, entrar em um novo mercado ou adquirir outra empresa – exige investimento. E, como qualquer investimento, só deveria ser realizada quando a expectativa de retorno supera o custo de capital.

Sob essa ótica, o verdadeiro dilema não é escolher entre crescimento orgânico e M&A. É decidir onde alocar o capital da empresa.Essa mudança de perspectiva parece sutil, mas muda completamente a forma de analisar uma estratégia de expansão.

Existem empresas capazes de reinvestir capital internamente durante décadas com retornos excepcionais. Nesses casos, insistir em aquisições pode até destruir valor ao desviar atenção daquilo que tornou o negócio vencedor. Enquanto existirem oportunidades de investimento interno capazes de gerar retornos superiores ao custo de capital, esse tende a ser o melhor uso do capital da empresa.

Por outro lado, há situações em que adquirir uma empresa deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser a melhor decisão econômica. Mas isso só faz sentido quando existe um objetivo estratégico claro.

Na prática, a maior parte das aquisições busca acelerar algo que seria mais lento, mais caro ou mais arriscado construir internamente. Em geral, elas possuem cinco motivações.

O primeiro é comprar tempo. Em mercados que mudam rapidamente, desenvolver uma solução do zero pode significar perder uma janela de oportunidade. Comprar uma empresa encurta esse caminho.

O segundo é comprar talento. Muitas vezes, o principal ativo adquirido não é o produto, mas a equipe, o conhecimento e a capacidade de execução.

O terceiro é comprar tecnologia. Quando uma tecnologia já foi desenvolvida e validada pelo mercado, adquiri-la pode ser mais eficiente ou até a única alternativa viável, principalmente no caso de uma patente.

O quarto é comprar distribuição. Uma aquisição pode oferecer acesso imediato a clientes, canais de venda ou novos mercados, principalmente em uma internacionalização, em que construir uma operação do zero costuma ser mais lento e mais arriscado.

Por fim, algumas empresas compram proteção competitiva. Adquirir um ativo estratégico também pode ser uma forma de preservar sua posição de mercado ou impedir que um concorrente fortaleça a dele.

No entanto, mesmo quando a lógica estratégica faz sentido, uma aquisição ainda pode destruir valor.Um dos principais determinantes da criação de valor em uma aquisição é o preço pago. Uma excelente companhia, adquirida pelo preço errado, pode se transformar em um mau investimento.

Em mercados muito competitivos, o imediatismo e o FOMO (fear of missing out) frequentemente levam compradores a aceitar valuations difíceis de justificar economicamente.

O sucesso da operação depende ainda da capacidade de integração. Unificar sistemas, processos, governança e equipes costuma ser mais complexo e demorado do que o planejado, atrasando – ou até comprometendo – a captura do valor esperado.

A integração cultural merece atenção especial. Em muitas aquisições, o principal ativo são as pessoas. Se os talentos que justificaram a transação deixam a empresa, parte importante da tese de investimento desaparece junto com eles.

O mesmo vale para as sinergias. Enquanto reduções de custo costumam ser mais previsíveis, sinergias de receita dependem de execução e, portanto, são muito mais incertas.

É justamente por isso que não existe um preço absoluto para uma empresa. Existe um preço que faz sentido para cada comprador. Uma companhia com acesso a capital mais barato, maior escala ou sinergias mais relevantes pode pagar significativamente mais pelo mesmo ativo e, ainda assim, obter um retorno superior. Em outras palavras, a mesma empresa pode ser um excelente investimento para um comprador e um investimento ruim para outro.

Essa análise também é influenciada pelo ambiente macroeconômico. Afinal, ele altera o custo de capital, a disponibilidade de financiamento e as expectativas sobre o futuro dos negócios.

Em períodos de maior incerteza, torna-se mais difícil precificar um ativo. Diferenças de percepção entre compradores e vendedores aumentam, reduzindo o número de transações ou prolongando as negociações.

A taxa de juros é outro fator determinante. Juros mais altos elevam o custo de oportunidade, aumentam o custo de capital e tornam as aquisições mais seletivas. Como consequência, os valuations tendem a cair e as empresas passam a exigir retornos maiores para justificar uma aquisição.

Por outro lado, momentos de fragilidade econômica frequentemente criam oportunidades para empresas com balanços sólidos. Restrições de crédito ou necessidades de liquidez podem levar bons ativos ao mercado por preços mais atrativos, favorecendo movimentos de consolidação.

Já em ciclos de abundância de capital ocorre o oposto. Com maior liquidez e financiamento barato, cresce a competição por ativos, os múltiplos se expandem e aumenta o risco de pagar caro demais. Embora o ambiente favoreça um maior volume de transações, isso não significa, necessariamente, melhores investimentos.

No fim, não existe uma resposta universal para o dilema entre crescimento orgânico e aquisições. A melhor decisão depende das oportunidades internas, das condições do mercado e do estágio do ciclo econômico. O que diferencia as empresas que criam valor de forma consistente não é a estratégia de crescimento escolhida, mas a capacidade de adaptar essa estratégia ao contexto sem perder a disciplina na alocação de capital.

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