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Na era da IA, conteúdo virou commodity, contexto não

Foto: divulgação

Semana passada almocei com um grande amigo meu para colocar o papo em dia, principalmente sobre o momento profissional de cada um.

Aquela típica conversa que serve como pano de fundo para algo maior mesmo que a gente nem saiba exatamente o que será.

Lembro de comentar sobre como um profissional liberal precisa se reinventar como consultor quando o mundo aprende, diariamente, a usar a inteligência artificial.

Como tem sido cada vez mais fácil acessar conteúdos e estruturar narrativas supostamente verdadeiras para se posicionar ou criar novos produtos. Assim como é cada vez mais possível organizar o seu raciocínio para explicar um conteúdo denso para um cliente que ainda não conseguiria compreender sozinho.

No fim, entendemos que conteúdo virou commodity e saber conectar o contexto de negócio dos clientes com as áreas que dominamos, como Gestão de Pessoas, será o diferencial diante do poder de análise de uma inteligência artificial.

Talvez a reinvenção do serviço de consultoria esteja apenas começando em virtude dos avanços da inteligência artificial. Afinal de contas, você pode ter um “consultor de GP” no seu celular a partir de um agente ligado ao seu WhatsApp 24h por dia te dando dicas sobre plano de desenvolvimento e técnicas de feedback quando você fizer o seu próximo 1:1.

Assim como eu também entendo que usar inteligência artificial nos serviços de consultoria é um caminho sem volta. O pulo do gato aqui parte da premissa de que o entendimento vai além do que é previsto quando digitamos um prompt no LLM da vez.

Essa forma de interpretar o que vai além do que é dito é coisa que o ser humano capta muito bem.

As mensagens implícitas durante uma conversa com um gestor; a postura e os incômodos identificados pela linguagem corporal; as contradições nos exemplos dados; os artefatos culturais expostos nas paredes, no organograma institucional e até na arquitetura do escritório; além da forma como as pessoas se vestem e assim por diante.

Ou seja, a inteligência artificial não estava naquela reunião no início de março quando o diretor cortou o projeto, não viu quem olhou para o chão e não sabe que aquele silêncio de agora é consequência daquela decisão.

Muita coisa ligada à presença e ao histórico que só um par de olhos humanos é capaz de identificar.

E essa capacidade de interpretação e conexão dos contextos organizacionais, atrelada à expertise de RH, é onde mora o diferencial da consultoria atualmente. Não só para aquela que usa IA para melhorar seus próprios processos, mas também para aquelas que usam IA como produto final da sua atuação.

O que vale para quem presta serviço de fora, também vale para quem atua como liderança no RH das empresas.

Vou descrever uma situação hipotética que exige que o RH entenda o contexto de negócio e use os seus próprios subsistemas para entregar mais resultados.

Imagine se fôssemos uma grande indústria de sucos do mercado brasileiro.

Se a Diretoria define que será preciso vender mais suco de laranja em um novo mercado para atender a uma política de expansão da companhia, os times precisarão entender o que significa essa expansão (base de clientes, ticket médio, margem de contribuição, CMV, etc.) e se esses números serão traduzidos em aumento de receita ou eficiência operacional.

E toda expansão termina em gente. Alguém vai precisar contratar, treinar e segurar as pessoas que vão abrir esse mercado. É aqui que o RH entra na conta, ou deixa de entrar.

Se eu entendo o contexto, eu consigo definir ainda melhor a minha estratégia de Gestão de Talentos. Ter uma relação madura com os dados é saber usar o seu contexto a favor da sua estratégia. Caso contrário, tudo vira spray and pray.

Para isso, cruzamos os dados de rotatividade e receita média por colaborador, além do tempo médio de contratação e o custo de substituição. Apenas para dar alguns exemplos.

A partir do momento em que o meu tempo de contratação é de 30 dias, seguido de um ramp-up de outros 60, qualquer demissão que eu fizer vai me custar a rescisão de um profissional, o tempo de contratação de uma nova pessoa e mais 60 dias para ela se preparar para gerar retorno financeiro para a minha empresa.

Se o meu planejamento não considerar esses 90 dias para eu desenhar processos seletivos mais organizados e um onboarding que fale a linguagem do negócio desde o primeiro dia, então eu já entro com 25% do meu calendário comprometido e ainda sujeito a perder a pessoa por desorganização ou ociosidade.

O meu custo de substituição vai para o céu e a organização não entregará a sua meta.

Aqui é onde a inteligência artificial faz muito bem o seu papel. A análise é terceirizada para a IA. A correção do que veio, a conclusão do que será executado e a conexão de tudo isso na prática são responsabilidade do ser humano.

Com isso, fica ainda mais fácil desenvolver as atividades (treinamentos, avaliações de performance, coaching, 1:1 e assim por diante) que precisarão ser implementadas para entregar essa estratégia.

Qualquer coisa fora desse entendimento contextual vira fumaça. E você sabe, toda fumaça é volumosa e imponente, porém sem qualquer conteúdo quando você passa a mão.

Vamos usar a inteligência artificial a nosso favor. Ela é a calculadora do século XXI. O novo Microsoft Word do milênio. A mais nova ferramenta para otimizar ainda mais a nossa contribuição como profissionais liberais ou líderes de RH nas organizações.

Por fim, o RH estratégico precisa entender a linguagem do negócio que atende. Muito mais que confeites e balões ou dinâmicas de grupo que acabam nelas mesmas, o RH estratégico precisa entender os principais indicadores financeiros da organização pois eles representam diretamente os esforços dos times dos quais fazem parte. Com ou sem IA.

E se não for possível ativar e intensificar o potencial desses esforços internos, então o RH está resolvendo outro tipo de problema. Provavelmente um problema que não interessa a ninguém.

Terminei o almoço com uma pergunta que eu ainda não consegui responder. E é ela que eu deixo com você.

A leitura de contexto é o nosso diferencial, mas ela também cobra o seu preço. A inteligência artificial não deve favores, não tem medo do diretor e não precisa voltar naquele cliente no mês que vem.

Então, quantas vezes o seu contexto te fez suavizar uma conclusão que a IA entregaria crua?

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Sócio na Entre Aspas – Gente & Gestão

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