Por Zélia Janssen, coordenadora-geral do Capítulo Santa Catarina do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Nesta época em que transformações acontecem em uma velocidade sem precedentes, a inteligência artificial redefine profissões, a digitalização modifica modelos de negócio, novas formas de trabalho desafiam antigas estruturas organizacionais e, pela primeira vez, convivem nas empresas até cinco gerações com expectativas, experiências e visões de mundo bastante distintas. Diante desse cenário, costumo dizer que o maior desafio das organizações não é acompanhar a evolução da tecnologia, mas garantir que as pessoas consigam evoluir junto com ela.
É nesse ponto que a governança corporativa amplia seu protagonismo. Durante muitos anos, ela foi associada principalmente a controles, transparência, gestão de riscos e conformidade. Esses pilares continuam indispensáveis. Porém, a complexidade do ambiente empresarial exige que vá além. Seu papel passa a ser também o de conectar estratégia, inovação, cultura organizacional e desenvolvimento humano.
A tecnologia, por si só, não torna uma organização mais preparada para o futuro. Sistemas podem ser adquiridos, plataformas podem ser implementadas e algoritmos podem automatizar processos. O verdadeiro diferencial competitivo continuará sendo a capacidade das pessoas de aprender, colaborar, inovar e tomar decisões responsáveis.
Por isso, considero um equívoco enxergar a transformação digital apenas como uma agenda tecnológica. A rigor, ela trata de pessoas. Exige novas competências, modelos de liderança mais colaborativos, ambientes que estimulem o aprendizado contínuo e uma cultura capaz de transformar mudanças em oportunidades.
Nesse contexto, a governança corporativa deixa de atuar apenas como um mecanismo de supervisão para assumir uma função estratégica na construção dessa cultura. Cabe aos conselhos e às lideranças assegurar que inovação e propósito caminhem lado a lado, que a busca por resultados esteja alinhada aos valores da organização e que a transformação ocorra de maneira ética, responsável e sustentável.
Outro aspecto que merece atenção é a convivência entre diferentes gerações dentro das empresas. Nunca tivemos ambientes corporativos tão diversos do ponto de vista etário. Profissionais com décadas de experiência compartilham espaço com jovens que cresceram em um universo totalmente digital. Em vez de enxergar essa realidade como fonte de conflito, a boa governança deve transformá-la em uma vantagem competitiva.
Diversidade geracional amplia repertórios, favorece a inovação e melhora a qualidade das decisões quando existe uma cultura organizacional baseada no respeito, na escuta e na colaboração. Empresas preparadas para o futuro são aquelas capazes de aproveitar o melhor de cada geração, promovendo trocas de conhecimento em ambos os sentidos.
Da mesma forma, o conceito de bem-estar organizacional ganha uma dimensão que ultrapassa as iniciativas tradicionais de qualidade de vida. Empresas resilientes são aquelas que oferecem segurança psicológica, estimulam relações de confiança, valorizam diferentes perspectivas e criam ambientes em que as pessoas possam contribuir plenamente com seu potencial. Esse também é um tema de governança, porque influencia a capacidade da organização de inovar, reter talentos e gerar valor no longo prazo.
Essas reflexões estarão no centro do evento Conexão Governança – Capítulo Santa Catarina, que o IBGC realizará em 2 de setembro. Ao reunir especialistas para discutir os impactos das transformações tecnológicas, a evolução das lideranças, o futuro da força de trabalho e o protagonismo das diferentes gerações, o encontro reforça uma percepção cada vez mais presente nas organizações: a governança precisa incorporar uma visão mais humana para fortalecer culturas resilientes, inclusivas e sustentáveis.
Considero especialmente relevante que tal debate aconteça neste momento. Estamos vivendo uma transição em que inovação deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma condição de sobrevivência. Entretanto, nenhuma tecnologia, por mais sofisticada que seja, substitui valores, propósito ou capacidade de liderança. São esses elementos que a governança corporativa deve preservar enquanto impulsiona a transformação, contribuindo para que as empresas sejam capazes de aprender continuamente, adaptar-se às mudanças e manter as pessoas no centro das decisões.