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Sobre construir repertório

O seu repertório é construído pelo que você escolhe observar.

As referências que você cultiva ao longo da vida aparecem na forma como você cria, conversa, se veste e interpreta tudo ao seu redor.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de viajar.

Não apenas porque gosto de conhecer lugares novos, mas porque cada lugar me lembra que existe mais de uma maneira de fazer as coisas.

Mais de um jeito de viver.

Mais de um ritmo possível.

A gente passa alguns dias em outra cidade e começa a reparar em coisas que, em casa, talvez nem percebesse. A maneira como as pessoas ocupam as ruas. Como um restaurante recebe seus clientes.

Como uma loja conta uma história. Como alguém organiza o próprio tempo. Como uma cidade escolhe preservar o antigo ou abrir espaço para o novo.

São pequenas coisas.

Mas elas ficam.

Talvez repertório seja um pouco isso. A capacidade de guardar dentro da gente aquilo que encontramos pelo caminho, mesmo quando ainda não sabemos para que aquilo vai servir.

Um livro que não tinha relação nenhuma com o trabalho e, meses depois, muda uma ideia.

Uma conversa durante uma viagem que volta à cabeça em uma decisão importante.

Uma exposição que desperta uma referência estética.

Uma pessoa que vive de um jeito completamente diferente e faz você perceber que algumas das suas certezas eram apenas hábitos.

A vida vai nos oferecendo referências o tempo inteiro.

A questão talvez seja perceber quais delas estamos deixando entrar.

Isso também aparece na carreira.

A gente fala muito sobre experiência profissional como se repertório fosse sinônimo de quantidade. Quantos anos de mercado. Quantos cursos. Quantas empresas. Quantas certificações.

Mas existe um tipo de experiência que não cabe no currículo.

É a experiência de ter visto outras coisas.

De ter conversado com pessoas diferentes.

De ter errado em contextos diferentes.

De ter viajado.

De ter mudado de opinião.

De ter trabalhado com alguém que pensava completamente diferente de você.

De ter vivido fora da própria bolha por tempo suficiente para perceber que o seu jeito não era necessariamente o único jeito.

Talvez seja por isso que algumas pessoas consigam olhar para um problema conhecido e enxergar uma possibilidade nova.

Não porque tenham uma resposta que ninguém conhece.

Mas porque têm referências suficientes para fazer conexões que antes não existiam.

Repertório não é saber mais.

É conseguir enxergar mais.

E existe uma parte dessa construção que é ainda mais difícil.

Porque construir repertório também significa reconhecer quando alguma coisa deixou de fazer sentido.

Nem toda referência precisa ser carregada para sempre.

Nem todo lugar onde chegamos precisa ser o lugar onde vamos permanecer.

Nem toda versão nossa merece uma segunda temporada.

Há momentos em que crescer não significa acrescentar alguma coisa. Significa ter coragem de interromper.

Um trabalho que já não conversa com quem você se tornou.

Uma relação que deixou de ser recíproca.

Uma maneira de viver que fazia sentido para uma versão anterior de você.

Uma expectativa que você passou anos tentando cumprir sem nunca perguntar se, de fato, era sua.

E talvez essa seja uma das escolhas mais difíceis da vida: distinguir aquilo que ainda faz parte de nós daquilo que apenas ficou por perto porque sempre esteve.

Li uma frase esses dias que ficou comigo:

“Imagine um dia olhar para trás, e perceber que você teve a coragem de quebrar um ciclo para correr atrás da vida que realmente queria e deu certo.”

Não sei se a gente consegue ter essa certeza enquanto está fazendo a escolha.

Talvez essa seja justamente a parte mais difícil.

Quando estamos no meio de uma mudança, quase nunca sabemos se estamos sendo corajosos ou apenas imprudentes. Se estamos recomeçando ou desistindo. Se estamos seguindo uma intuição ou fugindo de alguma coisa.

Só depois conseguimos olhar para trás e entender algumas decisões.

E talvez seja por isso que viajar também tenha tanto a ver com mudança.

Quando você muda de cenário, percebe que muita coisa que parecia permanente era apenas familiar.

Que existem outras rotas.

Outras possibilidades.

Outras formas de chegar.

Talvez a vida seja construída um pouco assim, entre aquilo que escolhemos observar e aquilo que decidimos não repetir.

Entre as referências que acumulamos e os ciclos que temos coragem de interromper.

Entre tudo o que o mundo coloca diante da gente e aquilo que, por algum motivo, escolhemos guardar.

A gente vai ficando parecido com aquilo que contempla.

Por isso, talvez valha prestar mais atenção ao que estamos olhando.

Aos lugares que frequentamos.

Às pessoas que escutamos.

Às histórias que consumimos.

Às conversas que aceitamos ter.

Aos caminhos que ainda não conhecemos.

E também àquilo que já sabemos, lá dentro, que não queremos mais levar conosco.

Porque repertório não é apenas aquilo que a vida nos dá.

Também é aquilo que escolhemos fazer com o que a vida nos deu.

E talvez exista alguma liberdade nisso.

Poder continuar mudando de ideia.

Mudar de caminho.

Conhecer outros lugares.

Deixar algumas coisas para trás.

E permitir que o mundo, aos poucos, continue aumentando a nossa maneira de enxergá-lo.

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Head of Revenue na SalesHunter, professora e mentora de startups.

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