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Sobre o tempo que a tecnologia não devolveu

Talvez uma das maiores promessas da tecnologia tenha sido nos devolver tempo. Fazer mais rápido, automatizar o que era repetitivo, tirar o trabalho operacional das nossas mãos para que sobrasse espaço para aquilo que realmente exige pensamento. No marketing, essa promessa ficou ainda mais evidente com a inteligência artificial. Hoje, uma ideia pode virar texto em segundos, uma campanha pode ganhar dezenas de versões antes mesmo de alguém terminar o café, uma imagem pode ser criada sem abrir um programa de edição e uma apresentação pode nascer quase pronta. A gente ficou muito mais rápido. A pergunta é o que estamos fazendo com esse tempo que supostamente ganhamos.

Porque fazer mais rápido e ter mais tempo são coisas diferentes. Quando uma tarefa que levava duas horas passa a levar vinte minutos, o mais comum não é ganhar uma hora e quarenta para pensar com calma, ler um livro ou simplesmente não fazer nada. É receber outra tarefa. Depois outra. Mais uma campanha, mais uma versão, mais um canal, mais um teste, mais uma possibilidade. O tempo economizado é rapidamente preenchido por uma nova demanda. A nossa capacidade de produzir aumentou, e junto com ela aumentou também a expectativa de que deveríamos produzir mais.

Esse é um dos paradoxos da produtividade. Quanto mais capazes ficamos de fazer, mais coisas passam a parecer possíveis de fazer. E quando produzir fica fácil, dizer não começa a exigir mais coragem.

No marketing, isso aparece o tempo inteiro. Antes, talvez pensássemos em três títulos para uma campanha. Hoje podemos pedir trinta. Antes, uma ideia tinha um caminho e precisava ser desenvolvida antes de sair do papel. Agora podemos criar cinco possibilidades em poucos minutos. A tecnologia diminuiu o custo de criar alternativas, mas não diminuiu o tempo necessário para decidir entre elas. Alguém ainda precisa olhar, comparar, questionar, entender o contexto e perceber o que realmente faz sentido para aquela marca.

Mais opções não significam necessariamente melhores decisões. Às vezes significam apenas mais coisas para revisar.

A inteligência artificial consegue produzir uma quantidade impressionante de coisas. Mas produzir não é o mesmo que ter algo a dizer. Uma ferramenta pode escrever dez versões de um texto, mas não sabe necessariamente qual delas merece representar uma marca. Pode sugerir ideias, mas não conhece uma relação com um cliente como quem esteve naquela conversa. Pode analisar dados, mas não carrega sozinha a responsabilidade de decidir o que fazer com aquilo.

A tecnologia acelera a execução. O julgamento continua sendo nosso.

E isso muda a conversa sobre produtividade. Durante muito tempo, ser produtivo significava conseguir fazer uma tarefa em menos tempo. Agora precisamos pensar no que fazemos com o tempo economizado. Se cada hora poupada pela tecnologia vira imediatamente uma nova hora de produção, não estamos necessariamente ganhando tempo. Estamos apenas aumentando a quantidade de coisas que cabem dentro do mesmo dia.

A tecnologia nos deu uma capacidade enorme de preencher espaços.

Mas nem todo espaço precisa ser preenchido.

Ainda precisamos de tempo para pensar antes de responder. Para observar antes de decidir. Para conversar sem estar procurando uma solução. Para ler alguma coisa que não tenha relação direta com a próxima entrega. Para viajar, conhecer outros lugares, ouvir outras histórias e deixar que o repertório cresça sem precisar transformá-lo imediatamente em resultado.

Talvez eu goste tanto de viajar também por isso. Existe alguma coisa muito necessária em sair do fluxo conhecido. Andar por uma cidade sem pensar em produtividade, entrar em um lugar porque chamou atenção, sentar para observar as pessoas, descobrir uma maneira diferente de fazer algo que parecia óbvio. São experiências que não têm uma entrega associada, mas que muitas vezes voltam com a gente para o trabalho de maneiras que não conseguimos prever.

Por isso, não acho que a inteligência artificial tenha falhado em nos dar mais tempo. O que aconteceu foi mais sutil. A tecnologia cumpriu uma parte da promessa. Tornou muitas coisas mais rápidas. Nós é que transformamos a velocidade conquistada em uma nova régua de cobrança.

Se antes uma campanha levava uma semana, agora ela precisa estar pronta em dois dias. Se antes criávamos três versões, agora esperamos quinze. Se antes uma pessoa conseguia dar conta de determinado volume, agora entendemos que ela pode fazer o dobro porque tem ferramentas melhores.

A eficiência virou expectativa.

E talvez esse seja o ponto que mais me incomoda. Não porque eu seja contra a tecnologia. Muito pelo contrário. Eu gosto de ferramentas que simplificam o trabalho, eliminam tarefas repetitivas e devolvem energia para aquilo que exige mais de nós. Mas existe uma diferença entre usar tecnologia para trabalhar melhor e usar tecnologia para justificar que precisamos trabalhar cada vez mais.

O ganho de velocidade deveria abrir espaço para pensamento, não apenas para volume.

Deveria permitir uma reunião melhor preparada, uma ideia mais bem construída, uma conversa mais atenta. Deveria devolver alguma coisa que o trabalho contemporâneo foi tirando aos poucos: o tempo de não responder imediatamente.

Porque algumas das melhores ideias não aparecem quando estamos produzindo. Aparecem quando estamos andando, viajando, lendo, conversando ou simplesmente deixando a cabeça quieta por alguns minutos.

O que a inteligência artificial pode fazer por nós é enorme. Mas existe uma escolha que continua sendo humana: decidir para onde vai a nossa atenção.

E talvez o verdadeiro avanço não seja conseguir fazer tudo mais rápido.

Seja finalmente não precisar fazer tudo.

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Head of Revenue na SalesHunter, professora e mentora de startups.

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