Antes de a primeira caneca ser servida, já tinha gente pedindo o cancelamento da Oktoberfest. O motivo era a previsão de um El Niño forte e, com ele, o risco de enchente em outubro. Meteorologistas, prefeitos e influenciadores chegaram a defender a suspensão preventiva da festa, com base nas previsões e sem pesar o que ela representa para a cidade e para a região.
A festa foi até o fim. De 7 a 25 de outubro, 680.072 pessoas passaram pelo Parque Vila Germânica, pouco mais de 9 mil a menos que o recorde de 2025, de 689.201, o maior da era das catracas. Não dá para medir quanto o alarmismo pesou nessa conta, mas é razoável supor que ele afastou parte do público. Semanas de notícia sobre enchente e cancelamento têm esse efeito em quem planeja viagem. Mesmo assim, no sábado, dia 17, foram 82.475 pessoas em um único dia, o maior movimento diário desde a instalação das catracas. Dos oito desfiles do calendário, um foi cancelado por causa da chuva: o último, no dia 24, por orientação da Defesa Civil. Dentro do parque, a programação seguiu normal.
Precaução tem lugar, e Blumenau sabe disso. Em 2023, a prefeitura suspendeu a festa por cinco dias porque a previsão indicava mais de 200 milímetros de chuva e um Itajaí-Açu que podia chegar a 12 metros, com água nos pavilhões. A estrutura foi desmontada, a festa voltou poucos dias depois e o calendário foi estendido até 29 de outubro. Uma festa desse tamanho sabe sair da frente do rio e voltar depois.
Compare as duas situações. Em 2023, a decisão veio com chuva volumosa prevista para os dias seguintes. Em 2026, havia quem pedisse o cancelamento com base em um cenário climático de meses. Em junho, a própria Defesa Civil reconhecia o El Niño em formação, mas dizia que ainda não era possível afirmar se haveria grande enchente em outubro. A prefeitura fez o que estava ao alcance, com mutirão de limpeza e desassoreamento.
Cancelar antes da hora sai caro. A Oktoberfest injeta cerca de R$ 450 milhões na economia catarinense a cada edição de 19 dias, segundo o diretor-geral da Vila Germânica, e gera mais de 6 mil empregos só em Blumenau. O dinheiro passa por hotel, restaurante, transporte e fornecedor. Em 2025, a festa fechou com superávit de R$ 12 milhões, e parte disso voltou para outros eventos da cidade, como a Páscoa e o Réveillon. Quem opera hotel em Blumenau conhece esses 19 dias de perto. Abrir mão deles por um risco que ainda não existia seria uma aposta, e quem paga a aposta nunca é quem fez a previsão.
O risco climático continua existindo e ninguém sério nega isso. Alertar é trabalho de quem entende de clima. Decidir o que fazer com o alerta cabe a quem governa, que precisa pesar custo, emprego e segurança antes de mexer em uma festa que nasceu depois de uma enchente. O caminho é acompanhar os boletins oficiais do AlertaBlu e cobrar as obras de prevenção da região.
A festa precisa de gente atenta ao rio. Gente decretando o fim antes de a água subir ela dispensa.