A busca por reduzir resíduos e manter materiais em circulação por mais tempo começa a ganhar espaço nas estratégias da indústria brasileira.
Em Santa Catarina, a RECICLO, indústria química de Morro da Fumaça, adotou um modelo de ciclo fechado para recuperar solventes utilizados por seus clientes e reinseri-los no processo produtivo.
A lógica permite que o material seja utilizado, recuperado e devolvido novamente à cadeia, reduzindo tanto o descarte quanto a necessidade de utilização de novos recursos.
O modelo faz parte da operação da empresa desde sua origem. A empresa nasceu com foco na recuperação de solventes que anteriormente não eram reaproveitados e que nem sempre recebiam destinação adequada.
Atualmente, os produtos são fornecidos principalmente para indústrias de embalagens plásticas. Depois do uso, os solventes retornam à empresa, passam pelo processo de recuperação e podem ser novamente disponibilizados aos clientes.
Resíduos passam a integrar novas cadeias produtivas
A estratégia de circularidade foi ampliada para outros materiais gerados pela própria operação industrial. Durante a recuperação dos solventes, por exemplo, são retirados contaminantes e resíduos, como a borra.
Em vez de serem simplesmente descartados, esses materiais são encaminhados para outras empresas, que podem utilizá-los como matéria-prima em seus processos.
“Aqui tudo se transforma. Nós produzimos e recuperamos os solventes, retiramos os contaminantes desse produto, como a borra, e encaminhamos para empresas que a utilizam como matéria-prima”, explica Alan Fabre, CEO da RECICLO.
Segundo o executivo, a empresa também busca alternativas para resíduos industriais e orgânicos gerados dentro da própria unidade.
O modelo segue um dos princípios da economia circular: fazer com que materiais permaneçam pelo maior tempo possível dentro de cadeias produtivas, seja retornando ao processo original ou assumindo uma nova finalidade.
Reaproveitamento chega aos resíduos administrativos e orgânicos
A circularidade também foi incorporada a atividades que estão fora da linha principal de produção. Papéis utilizados nas áreas administrativas são destinados à caldeira da RECICLO, onde passam a cumprir uma função energética.
As cinzas resultantes desse processo e resíduos orgânicos provenientes das áreas verdes são encaminhados para compostagem. O material é transformado em adubo, utilizado nos jardins da própria unidade e também doado à comunidade.
O movimento acompanha uma discussão que já alcança parte relevante da indústria nacional. Pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), em 2019, apontou que 53% das indústrias consultadas já reutilizavam materiais em seus processos produtivos.
Economia circular reduz lógica de descarte
Para Alan Fabre, a estratégia também envolve disseminar práticas de sustentabilidade entre funcionários, fornecedores e a comunidade próxima à operação.
“A RECICLO foi uma iniciativa de meu pai, que possui forte consciência sustentável, e agora dou continuidade ao trabalho junto a ele. Fazemos o que é possível para que a atividade industrial não prejudique o meio ambiente em que vivemos”, afirma.
Na prática, o modelo transforma a destinação de resíduos em uma etapa da própria cadeia produtiva. O solvente retorna para recuperação, subprodutos podem virar matéria-prima para outras empresas, papéis ganham função energética e resíduos orgânicos são convertidos em composto.
Mais do que eliminar um descarte específico, a estratégia mostra como a indústria pode redesenhar processos para fazer com que aquilo que antes representava o fim de uma cadeia volte a ter valor econômico e produtivo.