Na última segunda-feira, 28 de setembro, aconteceu a quarta edição do POPS Talks. Para mim, foi uma noite especialmente simbólica. A POPS está completando nove anos e, ao mesmo tempo em que celebrávamos essa história, fizemos o Warmup do South Summit Brazil 2027, em parceria com Dani Glück, embaixadora alumni do South Summit Brazil.
Dani veio nos apresentar a Startup Competition, que acontece no próximo ano em Porto Alegre. Camila Garcia, Gerente de Marketing e DPO do Impact Hub e da Companhia de Impacto, nos recebeu novamente no Impact Hub Floripa Centro. E digo novamente porque já existe uma relação afetiva com aquele lugar. É daqueles espaços em que você chega e não sente que está chegando. Parece que está voltando.
Mas, olhando para aquela noite, fiquei pensando que talvez o mais interessante não tenha sido exatamente o que aconteceu no palco. Foi perceber que, de alguma maneira, os três Talks e até o próprio formato do encontro acabaram respondendo a uma pergunta que está presente no POPS Talks desde o começo: o que ainda existe de essencialmente humano em um mundo que muda tão rápido?
O mote desta edição ajudava a provocar essa reflexão: “Você que tem ideias tão modernas, é o mesmo homem que vivia nas cavernas.”
É uma frase que parece simples, mas carrega uma provocação enorme.
A gente fala em inteligência artificial, automação, futuro, novas tecnologias e transformação digital como se estivéssemos vivendo uma ruptura completa com tudo o que veio antes. Só que, no meio disso tudo, continuamos sendo basicamente os mesmos seres humanos. Ainda queremos ser ouvidos. Ainda buscamos pertencimento. Ainda nos apaixonamos, sentimos medo, ficamos curiosos, criamos coisas porque alguma coisa nos incomoda.
Talvez a tecnologia tenha mudado muito mais rápido do que nós.
Olivia Fernandes Boretti, da Prototypia, começou justamente por aí. Sua fala passou pela própria trajetória, pela saída do Direito e pela busca por uma forma diferente de transformar realidades, mas chegou a uma coisa muito mais simples: pessoas precisam de pessoas.
Ela trouxe a imagem da fogueira, que achei particularmente feliz dentro do contexto do POPS Talks. Antes de palco, microfone, câmera, live e reunião virtual, havia gente sentada em volta do fogo contando o que tinha visto e aprendido.
A fogueira servia para aquecer e proteger, claro. Mas também criava um lugar para a conversa acontecer.
E talvez seja por isso que essa imagem continue fazendo tanto sentido.
Renata Costa, CEO da Beepay, trouxe uma outra perspectiva. A história do empreendedorismo, em alguma medida, também é a história da nossa capacidade de olhar para alguma coisa que não funciona e pensar em uma maneira diferente de fazê-la.
Da lança às lojas autônomas, o princípio não mudou tanto.
Existe um problema. Alguém percebe. Alguém tenta resolver.
O que achei interessante na história da Renata foi justamente perceber que nem sempre a oportunidade está em inventar alguma coisa completamente inédita. Às vezes ela está em olhar para uma experiência absolutamente cotidiana e perguntar por que aquilo precisa continuar daquele jeito.
Foi assim que uma insatisfação com a experiência de compra no varejo virou negócio, tecnologia e uma nova proposta para o consumidor.
E também foi assim que uma mudança brutal como a pandemia obrigou o negócio a mudar de direção.
Tem uma lição aí que serve para qualquer empreendedor: às vezes a realidade muda antes que a gente esteja preparado. E não adianta insistir na resposta antiga quando a pergunta já é outra.
Lucas Knobbe, CEO do Reservatório de Dopamina, levou a conversa para um lugar ainda mais íntimo: nosso próprio cérebro.
Vivemos em uma época em que tudo disputa nossa atenção. O celular vibra, chega uma mensagem, aparece uma notificação, alguém publica alguma coisa, outra coisa acontece. E, ao mesmo tempo, carregamos um cérebro que foi formado em um contexto completamente diferente.
A tecnologia é nova. Nós não somos tanto assim.
A fala de Lucas sobre comportamento, recompensa e funcionamento do cérebro ajuda a entender uma série de coisas que fazemos diariamente sem sequer perceber. E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes quando falamos de inovação: antes de tentar mudar o comportamento das pessoas, talvez seja necessário entender melhor quem são essas pessoas.
O curioso é que, ao final dos três Talks, eu tinha a sensação de que eles conversavam entre si, mesmo sem necessariamente terem sido construídos para isso.
Olivia falava da nossa necessidade de conexão. Renata, da nossa inquietação diante dos problemas. Lucas, dos mecanismos que continuam operando dentro de nós.
No fundo, todos estavam falando sobre comportamento humano.
E então tivemos um daqueles momentos que não estavam necessariamente no roteiro e que acabam dando outra camada para a noite.
Dionara Conrad, CEO da Opens Tecnologia, fez um pitch surpresa para apresentar o Laboratório de Futuros, que acontece nos dias 19 e 20 de novembro, no Sapiens Parque.
A proposta é uma experiência imersiva baseada em Foresight e Inteligência Antecipativa, reunindo diferentes perspectivas para perceber melhor as transformações que já estão acontecendo e os sinais do que pode vir pela frente. Serão dois dias, sete trilhas de futuro e uma combinação de conteúdo, experiência, reflexão e troca.
Achei interessante que isso tenha aparecido justamente naquela noite.
Porque depois de falar tanto sobre aquilo que somos, sobre como nos comportamos e sobre as coisas que continuam nos movendo, alguém nos convidou a pensar sobre o que vem depois.
Não para tentar adivinhar o futuro, mas para prestar mais atenção nele.
E talvez isso tenha tudo a ver com a história do próprio POPS Talks.
A primeira edição aconteceu em 2023, pouco depois de sairmos da pandemia. A gente estava cansado de lives, reuniões virtuais e daquele formato em que cada pessoa aparecia dentro de um quadradinho na tela.
Naquele momento, criar o POPS Talks foi quase uma vontade de recuperar uma coisa que parecia óbvia, mas que tinha ficado estranha de uma hora para outra: estar junto.
O mote daquela primeira edição veio de Vinícius de Moraes, em Samba da Bênção:
“A vida é a arte do encontro.”
Três anos depois, o mote é outro. Mas talvez a pergunta continue sendo a mesma.
Naquela época, a gente queria simplesmente voltar a se encontrar. Hoje, depois de tanta transformação tecnológica, talvez estejamos tentando entender por que o encontro continua sendo tão importante.
E acho que é justamente aí que a coisa fica interessante.
Porque não importa quantas ferramentas novas apareçam. No fim, ainda existe uma diferença enorme entre receber uma informação e viver uma experiência com outras pessoas.
Uma conversa não é apenas uma troca de informações.
Uma ideia muda quando encontra outra ideia.
Uma pergunta muda quando alguém responde.
Uma história ganha outro significado quando é contada para alguém.
Talvez seja por isso que ainda fazemos eventos presenciais em uma época em que poderíamos transmitir praticamente tudo pela internet.
Não é apenas sobre o conteúdo.
É sobre o que acontece entre uma fala e outra. No corredor. Na mesa. No café. Na conversa que começa sem ninguém ter planejado. Na pessoa que você conhece e que, talvez, vai fazer parte de alguma coisa que ainda nem existe.
Foi isso que mais gostei de perceber nessa quarta edição.
O POPS Talks começou como uma vontade de reunir pessoas depois de uma pandemia. E, nove anos depois do nascimento da POPS, continua sendo uma espécie de exercício de lembrar que inovação não acontece apenas diante de uma tela.
Acontece entre pessoas.
Por isso também faço questão de reconhecer quem ajudou a construir aquela noite.
Dani Glück, pela parceria com o South Summit Brazil. Camila Garcia e todo o time do Impact Hub, que mais uma vez nos recebeu tão bem. Priscila Lopez, que conduziu a noite e apresentou nossos Talkers. Matheus Rodrigues, na produção de conteúdo. Nefhar Von Borck, registrando tudo em fotografia. Pedro Moura, no design. Dionara Conrad, pela provocação sobre futuros possíveis.
E, principalmente, Olivia Fernandes Boretti, da Prototypia, Renata Costa, CEO da Beepay, e Lucas Knobbe, CEO do Reservatório de Dopamina, que aceitaram colocar suas ideias no meio dessa roda.
Talvez seja isso que eu gosto no POPS Talks.
A gente pode falar de inovação, empreendedorismo, neurociência, tecnologia ou futuro. Mas, quando a noite termina, sobra uma coisa muito mais simples.
Pessoas que se encontraram.
E talvez a fogueira nunca tenha deixado de existir.
A gente só foi ficando cada vez melhor em mudar o lugar onde acende o fogo.
Perdeu o POPS Talks? Os três talks já estão disponíveis no link a seguir. Vem reviver as trocas com a Olivia, a Renata e o Lucas: