Pesquisar

5 motivos para você não chutar o balde nas redes sociais durante as eleições

Domingo, 20h40. A apuração acabou de virar e o seu celular não para de vibrar.

Um grupo comemora. Outro lamenta. E, no meio disso tudo, aparece o post de um conhecido que você considera um absurdo.

Você digita rápido. Três parágrafos, duas palavras em caixa alta e um ponto de exclamação a mais do que o necessário. Publica e vai dormir com a sensação de dever cumprido.

Segunda-feira, 9h. Reunião de alinhamento com um cliente importante. Do outro lado da tela está a gerente que curtiu o post que você atacou na noite anterior.

Ela sorri. Você também.

Mas o clima já não é o mesmo.

O risco não está na urna

Período eleitoral mexe com o mercado. Empresas adiam decisões, contratações desaceleram e o ambiente fica mais tenso.

Mas o maior risco para a sua carreira não está na eleição. Está na forma como você fala sobre ela.

E isso faz sentido. Ninguém controla o resultado das urnas. O que você controla é o seu comportamento, dentro da empresa e no ambiente digital.

E as pessoas já sentem esse peso. Neste ano, um levantamento da Heach Recursos Humanos com 2.080 profissionais em todo o País revela que 54,4% dos entrevistados evitam mostrar suas opiniões políticas por receio de serem prejudicados no trabalho.

Ou seja. Mais da metade prefere o silêncio.

Porém, o silêncio total também não é a resposta. Saber falar de política não é ficar calado. É entender o contexto, ouvir visões diferentes e se posicionar sem transformar cada conversa em um confronto.

Quando todo mundo está na mesma sala

Existe um conceito que ajuda a entender por que um post político pesa tanto. As pesquisadoras Alice Marwick e danah boyd chamaram de “colapso de contexto”.

Na vida offline, você fala de um jeito no churrasco da família, de outro no happy hour com os amigos e de outro na reunião com a diretoria. Você calibra o tom pela plateia sem nem perceber.

Nas redes, essas plateias desabam numa só. Família, amigos, colegas, clientes, líder e recrutador leem a mesma frase, no mesmo momento, com o mesmo tom.

E você escreveu pensando em apenas um deles.

Você vai entender. Estes são cinco motivos para não se exaltar nas redes, independentemente da sua ideologia.

1. Recrutadores olham o seu perfil

Se você está em processo seletivo, um post agressivo pode pesar mais que o seu currículo.

Isso não é paranoia. Em uma pesquisa da Harris Poll para a CareerBuilder, 70% dos empregadores usam redes sociais para avaliar candidatos antes da contratação, e mais da metade (54%) já encontrou conteúdo nas redes que os levou a não contratar um candidato.

O recrutador não está procurando a sua ideologia. Está procurando sinais de como você reage sob pressão, como trata quem pensa diferente e que tipo de conflito você pode trazer para o time.

2. Promoções dependem de percepção

A avaliação não termina na contratação. A mesma pesquisa mostrou que metade dos empregadores verifica os perfis de colaboradores atuais, e mais de um terço já advertiu ou demitiu alguém por conteúdo inadequado.

E quem decide o seu próximo passo avalia equilíbrio emocional, e não apenas entrega.

Quem participa de uma reunião de calibração sabe disso. Ali, a meta batida divide espaço com perguntas como “essa pessoa está pronta para liderar gente?” ou “como ela lida com divergência?”. Um histórico de ataques nas redes responde essas perguntas antes que você tenha a chance.

3. Seus clientes e colegas pensam diferente de você

Atacar um lado é atacar parte das pessoas com quem você trabalha todos os dias.

Em qualquer equipe minimamente diversa, a votação está dividida. No seu cliente também. Na sua carteira de fornecedores também.

Quando você chama metade do eleitorado de ignorante, uma parte do seu time se reconhece nessa frase. Ela não vai responder no post. Mas vai lembrar na próxima vez que você precisar de ajuda num prazo apertado.

4. O print fica

Você pode apagar o post, mas não controla quem já salvou e para quem enviou.

O botão de excluir dá uma falsa sensação de controle. Na prática, a captura de tela circula em grupos de WhatsApp que você nem sabe que existem, fora de contexto e sem a sua explicação.

E aquilo que foi escrito num impulso de domingo à noite passa a representar você por muito mais tempo do que a própria eleição.

5. A eleição termina e a convivência continua

Daqui a algumas semanas, a apuração acaba, as bandeiras saem das janelas e o assunto muda.

Mas você ainda vai precisar daquelas pessoas para entregar resultado. Do colega que pensa diferente, da cliente que votou no outro candidato, do líder que preferiu não comentar nada.

Relações profissionais levam anos para serem construídas. Um comentário leva segundos para desgastá-las.

O que eu vejo do lado de dentro

Na minha experiência, a exposição nem sempre é um problema.

Ela funciona quando você entende o contexto coletivo das suas palavras. Quando sabe que aquilo que escreve não fica só com você.

Mas o cenário muda quando você julga e ataca outras pessoas, de forma pejorativa, por causa das decisões políticas delas. Aí a imagem projetada sobre você como profissional pode ser muito negativa. E nem sempre o impacto é direto.

Às vezes alguém simplesmente deixa de seguir você. Ninguém comenta, ninguém reclama. Mas a relação no trabalho muda. Ela passa a ser estritamente limitada, feita de um sorriso de canto e de um “oi” numa reunião qualquer.

A intimidade construída antes esfria. A parceria fica menos ativa. A conversa, menos sincera.

E isso vale até para o que você não escreveu. Quando você recompartilha um conteúdo criado por outra pessoa, automaticamente assume aquela postura para si.

Agora, imagine isso num cargo de liderança.

Quando um líder compartilha conteúdos pejorativos ou socialmente mal aceitos, é natural que parte do time se sinta atacada. E a mesma pessoa que precisa conduzir aquela equipe no dia seguinte passa a ser vista como alguém que está do outro lado.

Por mais que as redes sociais sejam um espaço pessoal, elas não deixam de ser uma vitrine. E essa vitrine é vista por qualquer pessoa, independentemente de você separar o conteúdo pessoal do profissional.

Ou seja. Você pode até escolher o que posta. Mas não escolhe como as pessoas vão enxergar você depois disso.

Quando a forma custa mais que a opinião

Ter opinião não é o problema. O problema é quando a forma de expressar custa mais do que a opinião vale.

Use essa energia no que está ao seu alcance: seu desempenho, suas habilidades e a qualidade das suas relações profissionais.

Portanto, reflita: o que você publicou nesta semana ajuda ou atrapalha a próxima conversa sobre a sua carreira?

Compartilhe

Sócio na Entre Aspas – Gente & Gestão

Leia também