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Empreendedorismo negro: ancestralidade, estratégia e a construção de novos mercados no Brasil

Foto: divulgação

O empreendedorismo negro no Brasil nunca foi apenas sobre abrir empresas, mas ele nasce como resposta a contextos de exclusão, se fortalece como movimento coletivo e, hoje, se consolida como uma das forças mais consistentes de geração de valor dentro do ecossistema de inovação e tecnologia.

Mais do que tendência, trata-se de uma reorganização estrutural de protagonismo, um movimento que conecta ancestralidade, território, cultura e tecnologia para construir novos caminhos de desenvolvimento econômico dentro da sociedade

Nos últimos anos, esse avanço tem ganhado mais visibilidade, mas ainda é subdimensionado quando analisado sob a ótica de mercado, e sabemos o empreendedorismo negro não se limita à criação de negócios, mas ele redefine lógica de acesso, distribuição de oportunidades e construção de valor social.

É nesse contexto que surgem iniciativas que, na prática, traduzem essa nova dinâmica.

O Morro do Silício, idealizado por Cleuse Soares, é um dos exemplos mais potentes dessa transformação, ao levar tecnologia e capacitação para dentro das periferias, o projeto não apenas forma profissionais, mas cria conexões reais entre territórios historicamente marginalizados e o mercado digital.

A provocação que emerge desse movimento é direta: como transformar territórios historicamente excluídos em polos consistentes de inovação e geração de renda? 

Transformar territórios historicamente excluídos em polos de inovação não tem fórmula pronta, tem caminho. E esse caminho começa quando a gente para de tratar a periferia como lugar de falta e passa a enxergar como lugar de potência. O que existe ali? Gente que resolve problemas o tempo todo, que cria alternativa, que empreende com o que tem. Isso já é inovação. O que não chegou foi acesso, oportunidade e conexão, então, na prática, o que precisa acontecer? Formação que converse com a realidade, porque não adianta ensinar tecnologia como se todo mundo tivesse tempo, estrutura e dinheiro, tem que fazer sentido pra quem está ali e condições para começar, internet, equipamento, espaço e estrutura, sem isso, ninguém consegue se manter. E o principal: oportunidade de ganhar dinheiro com isso, porque quando entra renda, muda a vida da pessoa, da família e do território. Tem também algo que é difícil de medir, mas que faz toda diferença: quando a pessoa passa a se ver nesse lugar e entende que pode trabalhar com tecnologia, empreender, ocupar esses espaços. Isso muda postura, decisão e futuro. O Morro do Silício nasce desse entendimento, não é sobre levar algo de fora, é sobre abrir caminho para algo que já existe crescer, porque no fim, a periferia nunca precisou provar que é capaz, só precisou de uma chance real.

Já a atuação de Jéssica Cardoso, à frente da Interpreta, adiciona uma camada essencial a esse debate: a construção de narrativa, em um ambiente onde visibilidade, posicionamento e leitura de contexto definem acesso a oportunidades, comunicar se torna uma competência estratégica.

Nesse cenário, a pergunta se amplia: quem constrói as narrativas dentro do ecossistema de inovação e quais histórias ainda permanecem invisibilizadas?

Falar de ecossistema é, antes de tudo, falar de história. Os ecossistemas são espelhos e recortes da sociedade em que vivemos. E, por muito tempo, o imaginário social foi construído a partir de um lugar excludente sobre mulheres negras: o da subserviência, de estar à disposição para servir e não para construir, liderar ou inovar. Esse apagamento não é por acaso. Os saberes, tecnologias e estratégias criados por mulheres negras sempre foram base estruturante da sociedade, mas foram sistematicamente invisibilizados. Então, quando olhamos para o ecossistema de inovação hoje, é importante reconhecer que muitas histórias foram e ainda são negadas ao acesso, às oportunidades e ao mercado. Por isso, quando falamos de narrativa, não estamos falando apenas de comunicação. Estamos falando de poder. Quem conta as histórias define o que é reconhecido como inovação, quem se torna referência e quem acessa recursos. A InterPrêta nasce nesse lugar de inserir e tensionar essa narrativa, a partir da vivência de uma mulher negra, mãe e quilombola no Sul do Brasil, com o propósito de reposicionar mulheres negras no mercado de trabalho, garantindo remuneração adequada, acesso e valorização. Inclusive em um campo como a acessibilidade, que ainda é pouco reconhecido como estratégico, mas é essencial. No meu olhar, um ecossistema de inovação só é, de fato, inovador quando diferentes perspectivas e corpos acessam esse espaço. Não é possível inovar onde não há diversidade. Há não muito tempo, enquanto minhas ancestrais eram escravizadas, o poder já era dominado por um grupo específico de pessoas. Mas, o que isso tem a ver com o ecossistema de inovação? Tudo. Porque os ecossistemas continuam refletindo esse mesmo modelo de sociedade  e nós sabemos quais vozes ainda seguem sendo invisibilizadas. Mas é possível fazer diferente. E esse não é um movimento pontual é um compromisso diário de tensionar estruturas, ampliar acessos e garantir que novas narrativas não apenas existam, mas sejam ouvidas, reconhecidas e valorizadas. E sendo eu um corpo constituído de saberes, tecnologias, oralidade e ancestralidade, me conectar à minha base que me fortalece e me constrói todos os dias é fundamental para avançar. Ser uma mulher quilombola é vivenciar na prática, o verdadeiro sentido de comunidade e continuidade. O poder não está com quem acumula, mas com quem compartilha. A veia empreendedora junto com o senso de coletividade despertou ainda mais uma vontade de externalizar algo que construí e construo com muito cuidado e afeto ao lado da minha família, que é a  escuta atenta, às boas risadas, o cuidado, e tudo isso quase sempre, esteve ao redor de uma comida afetuosa aquela que abraça acompanhada do cheirinho de café de casa de vó, capaz de silenciar o barulho do mundo lá fora. Em um mundo marcado pela pressa, eu escolho a terra. Escolho a lagoa que banha minha comunidade. Escolho permanecer conectada ao território que me sustenta e a minha ancestralidade. E é desse lugar que nasce o Muiji Café e Cultura. Muiji, que significa “família” na língua africana kimbundu, carrega em si a extensão do amor, do pertencimento e da continuidade. Mais do que um negócio, o Muiji é um espaço de encontro onde cultura, saberes e tecnologias se entrelaçam no cotidiano, de forma viva e acessível. Porque, no fim, eu acredito profundamente que não há lugar mais próspero do que um cantinho para chamar de nosso. Um espaço onde a gente possa compartilhar histórias, fortalecer vínculos e construir, coletivamente, outras possibilidades de existir e inovar.

Já a presença da CUFA, com a atuação de Lu Brito, reforça um ponto que o mercado começa a compreender com mais clareza: impacto social e desenvolvimento econômico não são dimensões separadas. São partes de uma mesma engrenagem.

Ao conectar educação, acesso e geração de oportunidades, a CUFA atua diretamente na base que sustenta qualquer ecossistema econômico saudável.

No campo da tecnologia, a atuação de Nellys Correia, com a Digitais Pretas, evidencia o avanço de uma nova geração que não apenas ocupa espaços, mas cria suas próprias estruturas dentro do ambiente digital.

Mais do que formação técnica, o que está sendo construído são comunidades, redes de apoio e ambientes de pertencimento que sustentam crescimento de longo prazo.

O desafio, nesse caso, é ainda mais profundo: como garantir que a presença negra feminina na tecnologia seja estrutural, contínua e protagonista e não episódica? 

Meu primeiro encontro com mulheres negras empreendedoras foi em 2021, onde eu vi algo além de negócio, vi desenvolvimento, criatividade, inovação, tecnologia diferente do que se vende hoje, algo natural, instintivo, ancestral. Mas, mesmo com todos esses dons, tão característicos de quem não teve muitas vezes a possibilidade de escolha, existem todas as negações tão presentes em corpos pretos. “NÃO PODER CRESCER”, “NÃO PODER TER UM NEGÓCIO QUE LUCRA”, “NÃO PODER ESTRUTURAR SUA EMPRESA”, ”NÃO TER VALOR”. Esses “nãos” nem sempre são ditos mas dentro da seu discurso silencioso de exclusão, eles marcam muitas das milhões de afroempreendedoras que ainda em 2026, sobrevivem com os seus negócios, faturando na média de dois salários mínimos por mês. As Digitais Pretas, nascem em 2020 com esse olhar de que SIM NÓS PODEMOS.  Eu, mesmo sem entender de negócios de impacto social, entendia que não existia somente um lugar para nós. Nosso objetivo, desde o início, foi mostrar para as mulheres negras que existe sim possibilidades de sair das estatísticas e mudar histórias, e isso acontece quando estamos juntas, unidas em um objetivo maior. Mudando nossa visão de passado, encontrando a verdadeira história e potência ancestral, se fortalecendo e se inspirando em movimentos onde somos as protagonistas e tendo a consciência que SIM PODEMOS, JUNTAS, escrever uma nova história e deixar um caminho muito mais lindo e potente para as que estão por vir.

A atuação de Belkis, é uma complementação  dessa construção, fundadora da Umbá Consultoria, traz uma dimensão essencial para a maturidade desse ecossistema: estratégia e sustentabilidade de negócios.

A Umbá atua na estruturação de marcas, projetos e organizações que carregam propósito, mas que também precisam se posicionar, crescer e competir em mercados cada vez mais exigentes.

Aqui, o debate evolui para um outro nível: como transformar potência cultural e impacto social em modelos de negócio sustentáveis, escaláveis e economicamente relevantes?

Na Umbá, eu atuo justamente apoiando a transformação de ideias, causas e iniciativas em negócios mais estruturados e sustentáveis. Isso acontece por meio de mentorias estratégicas, onde redesenhamos as ferramentas de gestão de mercado para um olhar de negócios de impacto, isso serve como um norteador para melhor tomada de decisões, em processos e visão de futuro dentro dos negócios. O proposito da Umbá incentivar o crescimento de negócios de impacto, inclusive startups, que carregam propósito e relevância social, mas que também precisam de base técnica, clareza de modelo e sustentabilidade econômica para se manterem relevantes no longo prazo. As ferramentas de negócios que ainda orientam grande parte do mercado foram, em sua maioria, construídas a partir de referências eurocentradas e de contextos muito diferentes da realidade brasileira, o que faz com que muitas vezes não reflitam os desafios concretos de quem empreende aqui; elas partem de cenários de maior estabilidade, acesso a capital, formalização e previsibilidade, enquanto no Brasil muitos negócios nascem e crescem em contextos marcados por desigualdade, informalidade, urgência, criatividade, rede comunitária e forte vínculo com território e identidade. Por isso, na Umbá, acreditamos que não basta aplicar ferramentas prontas: é preciso traduzir, adaptar e redesenhar essas metodologias para que elas façam sentido para negócios de impacto e para empreendedores que constroem soluções a partir da sua vivência, da sua cultura e da sua realidade. Mais do que replicar modelos, o meu trabalho é transformar essas ferramentas em instrumentos estratégicos mais acessíveis, coerentes e aplicáveis ao cenário brasileiro, para que gestão, propósito e sustentabilidade caminhem juntos. É uma atuação que combina estratégia, sensibilidade e ferramentas práticas para que negócios de impacto não apenas existam, mas se consolidem como agentes econômicos e sociais relevantes.

O que conecta todas essas iniciativas não é apenas o recorte racial entre ela, mas a  forma como operam, por que existe uma inteligência própria sendo aplicada, que integra território, cultura, comportamento e estratégia de mercado de forma muito estratégica e inteligente.

É uma leitura de mundo que não separa identidade de negócio, nem impacto de resultado, e talvez esse seja o ponto mais relevante para o ecossistema como um todo.

E é importante ressaltar que o empreendedorismo negro não é um nicho emergente, mas uma das forças mais consistentes de inovação em curso no Brasi e ignorar esse movimento não é apenas um erro social, mas, um erro estratégico.

E ao longo da trajetória da Vanthi Eventos, que Thiara Galdino lidera, não decidiu apenas acompanhar esses movimentos, mas decidiu me conectar com eles e relação com cada uma dessas iniciativas parte de um lugar muito claro: escolheu construir ao lado de quem está comprometido com a transformação real em um cenário onde a pauta da diversidade, muitas vezes, é atravessada por disputas, fragmentações e conflitos que pouco constroem, fez uma escolha consciente.

Aproxima de coletividades que fazem sentido, para os valores que sustenta e para o cerne do seu trabalho. Porque, no fim, não é sobre ocupar espaços isoladamente, mas sobre construir, juntos, estruturas mais sólidas, mais diversas e, principalmente, mais estratégicas para o futuro que queremos ver.

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