A regulamentação do uso de canabidiol (CBD) como Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) para farmácias de manipulação começa a movimentar uma nova etapa da indústria de cannabis medicinal no Brasil.
Com a entrada em vigor da RDC nº 1.015/2026, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), empresas do setor passam a atuar em um mercado até então inexistente no país.
Entre elas está a Brascann Farmacêutica, distribuidora especializada em produtos à base de cannabis medicinal, que passou a fornecer CBD isolado para farmácias de manipulação. Lançada em março, a operação já representa 32% do faturamento da companhia e deve encerrar o ano com aproximadamente R$ 600 mil em receita.
A nova regulamentação autoriza o fornecimento de CBD com grau mínimo de pureza de 98% para formulações magistrais, permitindo que farmácias de manipulação desenvolvam medicamentos personalizados conforme a prescrição médica.
Mercado entra em nova fase
Até então, o acesso à cannabis medicinal no Brasil estava concentrado na importação por pacientes e na comercialização de produtos industrializados autorizados pela Anvisa. A nova regulamentação amplia a cadeia produtiva ao permitir que farmácias de manipulação utilizem o canabidiol como matéria-prima para formulações individualizadas.
Segundo Fabricio Pamplona, farmacêutico, doutor em Farmacologia e sócio-diretor da Brascann, a mudança tende a tornar o mercado mais competitivo e ampliar o acesso aos tratamentos:
“A entrada do CBD no mercado magistral reduz a dependência de produtos acabados importados e cria condições para uma cadeia mais eficiente. Dependendo da formulação, o custo do tratamento pode cair até 50% em comparação aos produtos atualmente comercializados nas drogarias”, afirma.
Além da redução de custos, a regulamentação permite maior personalização das terapias, com ajustes na dosagem, forma farmacêutica e concentração conforme a necessidade clínica de cada paciente.
Mercado bilionário ganha novo impulso
O novo ambiente regulatório chega em um momento de expansão da cannabis medicinal no Brasil. Segundo dados da Kaya Mind, empresa especializada em inteligência de mercado, o setor movimentou aproximadamente R$ 970 milhões em 2025, crescimento de 14% em relação ao ano anterior. A expectativa é que ultrapasse R$ 1 bilhão em 2026 e alcance R$ 1,2 bilhão até 2027.
Hoje, cerca de 870 mil brasileiros utilizam tratamentos com cannabis medicinal. As projeções apontam potencial para atingir 6,9 milhões de pacientes nos próximos anos.
Para ele, o crescimento do mercado passa agora por uma etapa menos regulatória e mais voltada ao desenvolvimento da cadeia farmacêutica:
“Durante anos, o setor discutiu autorização de produtos. Agora começamos a discutir escala, personalização dos tratamentos e ampliação do acesso”.
Expansão acompanha novo cenário regulatório
Atualmente, a Brascann fornece CBD isolado para 23 farmácias de manipulação distribuídas em quatro estados e pretende ampliar essa base para aproximadamente 60 estabelecimentos até o fim de 2026, além de expandir o atendimento a associações de pacientes.
Segundo a empresa, as farmácias de manipulação já representam 55% da receita da unidade de negócios dedicada aos insumos farmacêuticos. As associações respondem por 39%, enquanto as farmácias veterinárias concentram 6%.
Considerando todas as frentes de atuação, a Brascann projeta ultrapassar R$ 1 milhão em faturamento consolidado ainda no 3º trimestre, impulsionada pela demanda criada após a nova regulamentação da Anvisa.