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Estamos preparando pessoas para um mundo que já não existe?

Por Moacir Marafon, Vice-Presidente de Talentos da ACATE.

Para quanto tempo é suficiente aquilo que aprendemos hoje? Durante boa parte da história recente, aprendíamos uma profissão, entrávamos no mercado de trabalho e carregávamos grande parte daquele conhecimento por décadas. Depois, percebemos que seria necessário continuar aprendendo ao longo da carreira. Agora estamos entrando em uma terceira fase: precisamos aprender enquanto o próprio conhecimento se transforma.

Em poucos anos, ferramentas que sequer existiam passaram a fazer parte da rotina de milhões de empresas e profissionais. Novas competências passaram a ser necessárias e a própria forma de trabalhar começou a ser profundamente transformada, pois a tecnologia passou a ser o nosso copiloto. Mas, talvez a transformação mais profunda provocada pela IA esteja na velocidade com que ela transforma o que nós precisamos saber.

Aprendizagem simultânea à prática

Esse novo contexto traz mudanças importantes na relação entre formação e trabalho. Podemos compreender essa transformação a partir de três eras distintas. Na primeira, aprendíamos primeiro e trabalhávamos depois. A formação tinha começo, meio e, de certa forma, fim. O engenheiro, o médico, o contador, o técnico ou o professor construíam uma base de conhecimento que, com a experiência adquirida no trabalho, poderia sustentar grande parte de sua trajetória profissional. As transformações existiam, naturalmente, mas aconteciam em ciclos mais longos.

Já na segunda era, percebemos que precisaríamos voltar a aprender. A internet, a digitalização e a aceleração tecnológica encurtaram esses ciclos. Ganhou força o conceito de lifelong learning. Cursos de atualização, especializações, educação corporativa e novas formações passaram a acompanhar toda a carreira. Neste momento o aprender deixou de acontecer uma única vez, mas ainda havia certa separação entre os momentos de aprender e de aplicar aquilo que havíamos aprendido.

Agora estamos na terceira era, em que aprender e trabalhar acontecem simultaneamente. Inteligência Artificial, computação em nuvem, ciência de dados, automação, biotecnologia, internet das coisas e outras tecnologias avançam e convergem em uma velocidade extraordinária. Ferramentas mudam, modelos de negócio se transformam e novas competências surgem enquanto ainda estamos aprendendo as anteriores. 

Essa é a ruptura. E talvez ela nos obrigue a rever uma ideia profundamente arraigada: a de que a formação prepara alguém para exercer determinada profissão. Hoje, falar em formação de talentos implica preparar pessoas também para aquilo que ainda não sabemos que elas precisarão aprender.

Uma responsabilidade compartilhada

Esse desafio não pode ser atribuído apenas às instituições de ensino. Estamos todos aprendendo a lidar com uma transformação que acontece enquanto a vivemos. Escolas e universidades têm um papel essencial na construção das bases do conhecimento e no desenvolvimento da capacidade de raciocinar, comunicar, pensar de forma lógica e crítica e, sobretudo, aprender a aprender. Empresas estão cada vez mais próximas das mudanças que acontecem no trabalho. Governos podem criar políticas que estimulem formação e atualização, enquanto ecossistemas de inovação podem aproximar esses atores e acelerar a troca de conhecimento. Também cabe a cada profissional assumir uma responsabilidade que não pode ser terceirizada: o protagonismo sobre a própria aprendizagem e sua carreira.

O valor das boas perguntas

Com a ajuda da Inteligência Artificial, as respostas foram democratizadas. Nunca tivemos acesso a tanto conhecimento, de forma tão rápida. Nesse novo contexto, saber fazer as perguntas certas torna-se ainda mais importante.

E quanto a preparar as pessoas para o que ainda não sabemos, talvez esse seja o paradoxo mais interessante da educação neste momento. Durante muito tempo, formávamos pessoas transmitindo aquilo que sabíamos. Agora precisamos também prepará-las para lidar com aquilo que ainda não sabemos. Não sabemos quais tecnologias ainda surgirão, quais profissões serão criadas ou como as atuais serão transformadas. Nem sabemos por quanto tempo a Inteligência Artificial, como a conhecemos hoje, continuará sendo a grande protagonista tecnológica. 

Mas uma coisa parece clara: quem mantiver a curiosidade, souber formular perguntas, comunicar ideias, pensar criticamente e aprender continuamente terá melhores condições de atravessar qualquer dessas transformações. Por isso, mais importante do que ensinar Inteligência Artificial é formar pessoas capazes de aprender enquanto o próprio conhecimento se transforma. E talvez essa seja também a resposta à pergunta que dá título a este artigo. Se continuarmos preparando pessoas apenas para dominar o conhecimento de hoje, estaremos, sim, preparando-as para um mundo que já começa a deixar de existir.

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