Durante muito tempo, liderança foi associada a um modelo único de comportamento: racional, impessoal e construído a partir de referências predominantemente masculinas.
Para muitas mulheres, ocupar espaços de poder significava adaptar a própria voz, imagem e história a padrões que não foram criados para representá-las.
Esse cenário começa a mudar quando mulheres passam não apenas a conquistar esses espaços, mas também a redefinir o que significa liderar.
Inovação não está somente na criação de novas tecnologias. Ela também se manifesta na capacidade de questionar estruturas, desenvolver novas metodologias, transformar experiências em conhecimento e criar modelos de liderança mais diversos, humanos e representativos.
Mas reconhecer a própria potência não é suficiente. Para que ela produza transformação, precisa ser acompanhada de estrutura, estratégia, posicionamento e proteção.
Uma liderança que se torna referência também constrói ativos: uma marca, uma reputação, conteúdos, metodologias, livros, comunidades e experiências que possuem valor intelectual e econômico.
É justamente nessa interseção entre identidade, empreendedorismo e liderança feminina que atua Néllys Corrêa. Mais do que incentivar mulheres a reconhecerem sua força, ela defende que elas ocupem seus lugares com presença, estrutura e autoridade.
A Néllys Corrêa é estrategista de posicionamento e liderança feminina com identidade, mentora, palestrante, escritora e fundadora do Digitais Pretas, ecossistema criado em 2020 para fortalecer mulheres pretas.
Desenvolve mulheres líderes e empreendedoras para que ocupem seus espaços com identidade, clareza, estratégia e autoridade.
É idealizadora de mentorias, cursos, imersões e metodologias próprias, além de participar das obras “Pérola Negra” e “Digitais Pretas — Narrativas de Ancestralidade e Pertencimento”.
Néllys, a sua história começa em uma família matriarcal, guiada por sua mãe, sua tia e sua avó. De que forma essas três mulheres construíram as primeiras referências de potência e liderança que você carrega hoje?
Eu cresci numa família matriarcal, onde a imagem, a presença e a potência das mulheres eram diárias. Porém, ao mesmo tempo em que eu via todas essas referências, também enxergava a exaustão, via mulheres que tinham que dar conta da família, dos filhos e do trabalho, e que muitas vezes esqueciam quem elas eram. É claro que essa referência está em mim, no meu DNA e nas minhas atitudes. Entendo que somos o sonho dos nossos ancestrais, mas também sei que não precisamos carregar o peso que eles carregaram. Tenho trabalhado cada vez mais em mim ( e esse é um processo contínuo) para me tornar uma líder capaz de impor limites, entender a importância de descansar e preservar a minha saúde mental. Afinal, somente assim conseguirei atingir os meus objetivos. A minha mãe, a minha tia, a minha avó e todas as mulheres da minha vida contribuíram para a construção de quem sou hoje. Mas cabe a mim, agora, deixar um legado com muito mais leveza para a minha filha, para meu filho e para os que vêm depois e para todas as mulheres que cruzam o meu caminho.
A sua atuação parte da premissa de que “potência sem estrutura não sustenta crescimento”. Quais estruturas uma mulher precisa desenvolver para transformar talento, conhecimento e propósito em uma liderança economicamente sustentável?
Eu tenho comigo que é preciso, primeiro, reconhecer quem a pessoa é, sem máscaras, sem fantasias. Não é possível desenvolver a nossa potência sem entender a própria essência, mas, na grande maioria das vezes, vivemos em um ambiente onde nos é exigido ser apenas uma cópia. Por isso, um dos maiores desafios é justamente conseguir entender quem realmente somos. Outro ponto fundamental é compreender de onde viemos. À medida que sei quem sou, consigo olhar para a minha história, para a minha trajetória, e analisar com clareza o que devo honrar e seguir e o que preciso deixar de fazer. Há uma questão que trago com muita frequência no meu trabalho: resgatar a lembrança do motivo pelo qual iniciamos. A partir dessa conscientização, torna-se possível construir uma estrutura e um planejamento de futuro sólidos. A estrutura que considero ideal baseia-se em três pilares:
1. Autenticidade: compreender quem somos e reconhecer os nossos diferenciais;
2. Raízes e Referências:olhar para a nossa base e honrar a nossa trajetória;
3. Planejamento Estratégico:criar um caminho futuro que seja fiel e seguro, sem perder tempo olhando para a “grama do vizinho”, mas construindo a partir da própria vivência para alcançar a máxima efetividade.
Você costuma falar sobre mulheres que possuem trajetória e competência, mas continuam sendo ignoradas. Por que tantas mulheres altamente qualificadas ainda encontram dificuldades para se posicionar como autoridades em suas áreas?
Eu trago uma fala que não vem apenas das minhas vivências com outras pessoas, mas da minha própria trajetória pessoal. Eu já fui uma mulher invisível e por mais que eu tenha quase 1,80 m, por muito tempo eu não entendia quem eu era. Consequentemente, eu não conseguia me posicionar, simplesmente porque não sabia qual era a minha verdadeira identidade. Boa parte das mulheres que me procuram têm um potencial gigantesco. São líderes de destaque, possuem negócios relevantes e grande influência. No entanto, na maioria das vezes, elas chegam até mim vestindo uma personagem para serem aceitas ou para entregarem resultados, mas sem conseguir manter a fidelidade à própria essência. Quando digo que trabalho com o desenvolvimento de lideranças a partir da identidade, refiro-me a ir muito além do cargo ou do título. Trata-se de permitir que essas mulheres desenvolvam todo o seu potencial sem perder quem realmente são. Porque é somente assim que você consegue ocupar os lugares que são seus por direito, sem receio. O medo não vai desaparecer magicamente, mas nós aprendemos a vencê-lo no momento em que temos certeza de quem somos e do tamanho da nossa presença para ocupar qualquer espaço.
Muitas empreendedoras investem em posicionamento e visibilidade, mas deixam de proteger o nome da marca, suas metodologias, conteúdos e criações. Você acredita que ainda falta às mulheres uma percepção mais clara de que suas ideias e sua reputação possuem valor econômico?
Claro, com certeza! Uma das primeiras coisas que eu fiz quando criei as Digitais no momento em que entendi que não era só um grupo de WhatsApp ou um perfil de Instagram, mas sim que nós estávamos criando um negócio, foi fazer a formalização e o registro de marca. Isso porque eu entendi que existia algo grande nascendo ali, mesmo sem ter noção do tamanho de tudo que a gente ainda ia atingir. Boa parte das empresas e dos negócios está focada única e exclusivamente no resultado do caixa, no lucro que vai ter no final do dia, da semana ou do mês. Mas, às vezes, acabam deixando de pensar (e esse ‘às vezes’ nem é tão raro assim) nos detalhes mais importantes, que são: a estruturação do negócio, o desenvolvimento focado no crescimento a médio e longo prazo, e os cuidados com a própria marca. É fundamental ter aquele negócio, que talvez hoje seja pequeno, já assegurado para o futuro; garantindo que, quando ele se tornar uma grande marca, ela já seja sua de direito. Eu vejo esse detalhe em muitas mulheres que acabam deixando para amanhã: ‘depois eu faço’, ‘depois eu cuido’, ‘depois eu registro’, ‘depois eu passo por uma mentoria’. Mas uma das maiores dificuldades que as pessoas têm é conseguir ver além da urgência, ver além da necessidade imediata. Quando a gente faz um trabalho, tanto na questão do registro da marca quanto em um processo de mentoria, o nosso foco é justamente pensar a médio e longo prazo. E essa é uma mentalidade que algumas pessoas, aliás, muitas pessoas, ainda não têm.
Para finalizar: qual é o primeiro passo para uma mulher que reconhece a própria potência, mas ainda não conseguiu transformá-la em presença, estrutura e autoridade?
Por eu trabalhar com desenvolvimento pessoal, sempre bato nessa tecla: para conseguirmos despertar a nossa própria potência e a liderança que existe em nós, é preciso olhar para dentro. Isso dói, e nem todas as pessoas estão preparadas. É muito mais fácil seguir o perfil de uma influenciadora ou de uma mentora e fazer exatamente o que ela faz. Só que o que funciona para ela pode ser ótimo lá, mas nem sempre é o melhor para mim. Somos pessoas diferentes, de realidades diferentes e em momentos completamente distintos. Por isso, o primeiro passo para reconhecer a minha própria potência é olhar para dentro. Fiz esse exercício lá em 2020: foi difícil e doloroso, mas foi o meu renascimento. Digo que, de lá para cá, bato muito nessa tecla porque ali me descobri como uma mulher de potência e como uma mulher preta. Muitas coisas ao longo do caminho foram se ajustando, mas esse foi o ponto principal. Então, você, mulher que está lendo esta matéria agora: olhe para dentro para conseguir se reconhecer. Tenho uma frase que trago sempre nas minhas mentorias e palestras: “Mesmo sem referência, seja a referência”. Você terá pessoas que te inspiram, mas você precisa ser a sua maior inspiração. Você tem que ser o seu próprio motivo de orgulho. Ao olhar para dentro e reconhecer quem você é, as pessoas ao seu redor passarão a te enxergar de uma forma diferente. Você vai conseguir acessar lugares diferentes porque, a partir desse momento, você já sabe exatamente o seu tamanho.